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11 contra 11 e no fim ganha a abstenção

Com tantos vencedores e vencidos, esqueletos e batons, discursos e passeios de carro, esquecemo-nos que, em todas as eleições, nunca conseguimos descolar do futebol. São 11 contra 11 e no fim ganha a abstenção. Artigo por João Paulo Amorim.

Marcelo Rebelo de Sousa ganhou, sem surpresa, as eleições presidenciais. Venceu em todos os distritos, concelhos e em quase todas as freguesias. É uma vitória inquestionável. Congregou o apoio da esquerda e da direita – a grande escolha do eleitorado foi a moderação. Contudo, Marcelo não foi a escolha dos portugueses. A escolha dos portugueses foi, mais uma vez, a abstenção, que continua a ser espantosamente ignorada. Não podemos fingir que a maior parte dos portugueses não vota. 60,5%, para ser mais preciso, que representa mais de seis milhões e meio de pessoas. O tema, pelo seu interesse e complexidade, merece um artigo mais a fundo que irei publicar daqui a uns dias.

Acompanha-mos a disputa pelo segundo lugar como se de uma corrida de galgos se tratasse. Mas foi mais do que uma corrida. Foi um combate da decência contra o extremismo. Ana Gomes conseguiu ser o núcleo do voto útil e o que o seu resultado verdadeiramente demonstra é o descontentamento contra a extrema-direita. Numa parte da noite, era Ventura que se posicionava em segundo lugar, mas, a certa altura, o Porto salvou o resultado de Ana Gomes. Ultrapassou a Marisa Matias de 2016 e tornou-se na mulher mais votada de sempre numas presidenciais – um passo importante para reforçar a igualdade de género e o papel da mulher na nossa sociedade. Contudo, questiono-me: o que aconteceria se ela não se tivesse candidatado? Além disto, ficamos também a saber, pelo conjunto de comentadores de vários canais (praticamente todos homens brancos, de meia idade e ligados à política), que tudo o que não é o PS é agora considerado extrema-esquerda.

André Ventura levou as expectativas tão alto que acabou por conseguir a proeza de sair derrotado de uma grande vitória. Algo que não o impediu de ter um discurso como se tivesse acabado de ser eleito Presidente. Não proferiu a palavra “demissão” uma única vez mas admitiu que vai haver um novo teste à sua liderança no partido. Se fosse seu apoiante, interpretaria esta táctica não como uma demonstração de força e união mas como mais um jogo para alimentar o seu ego e brincar com as marionetas que o apoiam cegamente.

Ventura e o Chega são um fenómeno a estudar, com um crescimento como nunca se viu – multiplicou o resultado das legislativas por sete! E nisto os media são parciais. Será agora o Chega a terceira força política? Não creio que este seja o tecto para o partido, o crescimento exponencial vai continuar e só irá acabar ou com a moderação ou com a incompetência demonstrada no Parlamento/Governo quando lá estiverem presentes deputados do Chega que não tenham como nome “André Ventura”. Nem sei se existirão.

Apesar de a sua campanha ter sido marcada e manchada por um esqueleto em Serpa, um jantar com 170 pessoas e falsos ciganos, nada o parece afectar. Depois deste domingo, devíamos começar a combater a corrupção, a pobreza e as desigualdades com mais força, não resumindo a estratégia a chamar “fascista” a quem agradece o epíteto pela publicidade que proporciona.

O discurso mais estranho e caricato da noite foi o de Rui Rio, que admitiu não estar preocupado com o resultado de André Ventura, já a esfregar as mãos para uma coligação de Governo no continente e mais um grande passo para a normalização da extrema-direita em Portugal. Abordou até a vitória de André Ventura no Alentejo contra João Ferreira como se do seu partido se tratasse. Celebrou também a derrota do PS, ignorando por completo que muitos dos socialistas votaram em Marcelo.

A outra nova força política de direita, a Iniciativa Liberal, representada por Tiago Mayan Gonçalves, também aumentou significativamente a sua base de apoio mas acabou a festejar um empate com Vitorino Silva. É de salientar que este candidato foi constantemente discriminado durante a campanha por uma posição elitista da política e da comunicação social. Sempre que Vitorino fala traz algo interessante à discussão. De falta de apelo ao debate não o podemos acusar. Como referia, a Iniciativa Liberal “ganhou” e a onda liberal provocou um tsunami, com uma disputa pelo último lugar e uma grande disputa pelo eleitorado que rodeia a Universidade Católica. Ah, o CDS também ganhou. Francisco Rodrigues dos Santos é agora um capitão acomodado na proa do seu barco a afundar, depois de o partido que lidera não ter apresentado nenhum candidato nestas presidenciais e com isso ter perdido tempo de antena e a possibilidade de fragmentar o voto de direita, tirando força a André Ventura. Com tantos vencedores, começo a desconfiar da vitória de Marcelo.

Marisa Matias também se agarrou demasiado ao movimento #VermelhoemBelém sem perceber que isso significava mais um combate a André Ventura do que um apoio à sua candidatura. João Ferreira e Marisa Matias, que apresentaram em dezembro os dois orçamentos de campanha mais elevados, não chegaram aos 5%, não podendo ter direito à subvenção estatal. É melhor começar a pegar na carteira.

Com tantos vencedores e vencidos, esqueletos e batons, discursos e passeios de carro, esquecemo-nos que, em todas as eleições, nunca conseguimos descolar do futebol. São 11 contra 11 e no fim ganha a abstenção.

 

João Paulo Amorim