Artigo de Opinião Opinião

Porque não ter um jovem como Conselheiro de Estado?

No meio da desordem, um candidato chamado Vitorino Silva, perdido entre metáforas e alegorias, fez uma proposta a Marcelo Rebelo de Sousa que considero demasiado importante para passar despercebida: Porque não ter um jovem como Conselheiro de Estado? Artigo por João Paulo Amorim.

No início deste mês assistimos a debates presidenciais em que se falou sobre tudo menos sobre a Presidência da República e as responsabilidades que o cargo implica. Houve troca de ideias, convergências e divergências entre candidatos e disputa por certos eleitorados, mas não tem havido discussão sobre o maior factor em causa — a abstenção.

Antecipo nestas eleições mais um voto em massa no candidato que há anos tem sido escolhido como o preferido — o ficar em casa. Além de lacunas na literacia política e a pouca identificação com partidos e figuras políticas, há nestas eleições mais dois factores: o receio de contaminação pelo novo coronavírus e a sensação de já haver um vencedor, Marcelo Rebelo de Sousa. Desilude haver este vazio na democracia portuguesa e choca haver este vazio nos debates.

No meio da desordem, um candidato chamado Vitorino Silva, perdido entre metáforas e alegorias, fez uma proposta a Marcelo Rebelo de Sousa que considero demasiado importante para passar despercebida: Porque não ter um jovem como Conselheiro de Estado?

Tal medida iria aproximar esta faixa etária da política por ver “um deles” no círculo de decisão, alguém que sinta na pele os problemas do ensino universitário, da entrada no mercado de trabalho, os problemas com pobreza, álcool ou drogas, os insultos no ensino básico ou secundário, a depressão ou muitas outras questões que marcam uma geração e que precisam de ter voz. Permitiria também antecipar e prevenir os grandes problemas que os jovens vão ter que combater no futuro, desde as alterações climáticas ao desequilíbrio da Segurança Social.

De acordo com uma sondagem do ISCTE/ICS, 35% dos inquiridos entre os 18 e os 24 anos afirmaram que não pretendiam votar. Assim, como combater a abstenção tem que ser tema recorrente num debate. Urge discutir o medo da escola em sensibilizar os alunos para a política. Urge perceber porque é que os mais jovens não votam em massa. Como diz o ditado popular, é de pequenino que se torce o pepino. É por isso necessário ter em mente que estes jovens que não votam são os que, em eleições futuras, vão continuar a não comparecer nas urnas.

“Os jovens são solução, não são parte do problema. As medidas hoje tomadas por um Governo são as que vão acompanhar e impactar os jovens a vida toda. Que hoje estes não deixem que outros decidam o seu futuro por eles.”

Engane-se quem acha que os jovens não participam na política. Nunca uma geração esteve tão bem preparada como esta. A política é um tema recorrente nas redes sociais. Juntam-se em manifestações pelo feminismo, ambiente ou democracia. Envolvem-se em associações estudantis e projectos na faculdade. Ser “activo” politicamente não se restringe a estar numa divisão partidária juvenil.

Esta geração nasceu com a tecnologia nas mãos. No momento em que enfrentamos uma pandemia, os jovens passaram a assistir a aulas online. A realizar exames online. A fazer compras online. A chamar um táxi pelo telemóvel. Só falta mesmo votar pelo Instagram. Porque tarda tanto a discussão sobre o voto electrónico? Implica questões sérias relacionadas com a segurança na contagem dos votos e sobre a influência de terceiros na decisão de voto, mas é precisamente por essas razões que se torna tão importante trazer este tema para o debate público.

Como afirmou José Manuel Fernandes num artigo no jornal Público, os jovens são solução, não são parte do problema. As medidas hoje tomadas por um Governo são as que vão acompanhar e impactar os jovens a vida toda. Que hoje estes não deixem que outros decidam o seu futuro por eles.

 

Artigo originalmente publicado no “Megafone” da secção P3 do jornal Público

 

João Paulo Amorim