Crónica Opinião

Tempos de infância

Não há nada que recorde com mais carinho do que a minha infância. Passar a manhã na escola, ir a correr para casa depois das aulas para ver a minha série de eleição ou aventurar-me pelos trilhos menos percorridos da vila com os meus amigos fez de mim quem sou hoje. Sempre vivi numa região tranquila. Ir à capital ver a mais recente peça de Filipe La Féria ou ao Museu de Arte Antiga para admirar os Painéis de S. Vicente e a Ínclita Geração com a minha mãe interrompiam o ócio que experimentava na vila. Sinto que nunca perdi tempo e cada dia de brincadeira que vivi levo-o bem guardado no meu coração. No entanto, cada vez que olho para os mais novos, sinto-me ainda mais agradecido por tudo o que tive durante os meus anos de reguila.

O mundo anda mais apressado, disso não há qualquer dúvida. As rotinas que outrora não existiam, apoderaram-se das já poucas horas de Sol que tínhamos. As crianças estão cada vez mais sobrecarregadas e os pais não ajudam. Todos nós conhecemos aquele amigo ou amiga que pratica futebol à segunda, ballet à terça, trombone à quarta no conservatório, um pouco de karaté à quinta, umas horinhas de explicação à sexta, torneio de natação ao sábado seguido de um recital para mostrar os avanços feitos nas sessões de ballet e, ao domingo, catequese para terminar bem a semana. É esta a agenda de muitas crianças que ainda nem o Teorema de Pitágoras aprenderam. Todos aqueles chutos na bola, piruetas e fás sustenidos ainda têm lugar depois das longas horas de aulas a aprender Biologia, Matemática, onde os exercícios feitos na explicação tomam o professor de surpresa, Português, Física, Química, Música, onde o menino do trombone arrasa com movimentos avançados, Educação Física, onde o mais corajoso da turma arrisca a finta prodigiosa que aprendeu no treino da noite anterior ou ainda Formação Cívica, se o diretor da escola assim o desejar.

Hoje em dia, face à natureza ultracompetitiva da sociedade em que vivemos, os pais tentam fazer o que é melhor para os filhos. Procuram muni-los com todas as ferramentas e capacidades possíveis. Sem saberem, estão a tentar torná-los em polímatas, numa espécie de Leibniz ou Da Vinci. O que não sabem é que, ao impor todas estas atividades, estão a privar as crianças de muitas outras coisas necessárias para um crescimento saudável. Cair e esfolar o joelho, chutar a bola para o vizinho e decidir quem lá vai tirá-la sem que ninguém veja ou acordar ao domingo de manhã com a única preocupação de chegar à televisão a tempo de ver os desenhos animados deviam fazer parte das escolhas das crianças. Eu próprio pratiquei futebol, natação, karaté e andei na catequese, mas nunca deixei de parte tudo o resto, nem nunca o teria permitido a minha mãe.

Dos fracos não reza a história, essa é a verdade, e é essa mesma realidade que leva muitos pais e mães a sobrecarregar os filhos com atividades extracurriculares. O mundo não para de girar e a sociedade está a evoluir a um ritmo alucinante, mas, por vezes, é bom os pais lembrarem-se que o que têm a seu cuidado é uma criança, alguém que, quer goste de trombone, futebol ou ballet, merece uma tarde no parque a brincar, sem correias nem preocupações. No futuro, já terão imenso tempo para isso e as memórias de uma infância bem vivida poderão revelar-se uma ferramenta poderosa num futuro atribulado.