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Como combater a extrema-direita

Por coincidência (ou não), víamos em paralelo a este debate o resultado do crescimento da extrema-direita: a violência, o caos, a divisão e o desrespeito pela democracia que se vivem nos Estados Unidos, após a invasão do Capitólio por parte de apoiantes de Donald Trump.

Não foi só o debate mais visto das presidenciais. Foi o debate mais visto desde 2012. Uma audiência total de dois milhões de espectadores. É sabido que a polarização atrai as pessoas para a política e não há maior prova do crescimento dessa polarização em Portugal do que esta estatística.

Marcelo Rebelo de Sousa dominou claramente o debate contra André Ventura. Com isso, fez algo de extrema importância nos dias de hoje: prestou um grande serviço no combate ao populismo e à demagogia do novo fenómeno político em crescimento exponencial, o Chega. Respeitar a decisão do Tribunal Constitucional, na legalização do partido liderado por André Ventura, e respeitar a coligação dos Açores é respeitar a Constituição e combater a extrema-direita com ideias e com raciocínio.

Na análise ao debate, José Gomes Ferreira disse que imigrantes ou líderes de associações de imigrantes deviam, depois do que aconteceu, interpor uma ação judicial contra André Ventura. Não diria melhor. Quando o deputado mostra uma fotografia de diversos moradores do Bairro da Jamaica e os apelida de “bandidagem”, estamos claramente perante uma generalização infundada e um ataque a uma comunidade que já sofre diariamente com o estigma e a ostracização. Quando André Ventura vê alguém no chão a suplicar-lhe por ajuda, responde ao pedido com um pontapé. Marcelo foi implacável quando afirmou que não distingue portugueses, que não cria uma divisão entre “bons” e “maus” e que as minorias são tão portuguesas como todos os outros. Como afirmou, “o Bairro da Jamaica não é um caso de polícia, é um caso social”.

Marcelo conseguiu também reter certo eleitorado descontente com o seu mandato e hesitante em alterar o seu voto para André Ventura, pois ficaram esclarecidos sobre o que essa mudança significaria. Ficou mais do que clara a distinção entre as duas direitas.

O ainda Presidente da República mostrou-se claramente irritado em alguns momentos. Mas “o” momento da noite é quando Marcelo afirma que André Ventura, nas reuniões em Belém, não afirma a mesma coisa e com o mesmo vigor que afirma publicamente. É o famoso “tu na minha cara não dizes isso”. É também o reforço da postura camaleónica a que o sofista André Ventura nos tem habituado. Preenche os debates com casos e casinhos, repete alguns chavões até à náusea e apresenta zero substância política.

Marcelo foi ainda capaz de mostrar mais contradições do seu adversário, tendo sido particularmente certeiro numa ocasião. Quando relembra a André Ventura que as figuras que este afirma serem seus modelos, Francisco Sá Carneiro e o Papa João Paulo II, nunca defenderam o que ele defende.

Por coincidência (ou não), víamos em paralelo a este debate o resultado do crescimento da extrema-direita: a violência, o caos, a divisão e o desrespeito pela democracia que se vivem nos Estados Unidos, após a invasão do Capitólio por parte de apoiantes de Donald Trump.

André Ventura termina o debate com uma declaração assustadora. Admite ser a favor de uma ditadura que reconhecesse os portugueses de bem. Fecho a relembrar: a política não é a escolha de uma divindade perfeita, escolhida para liderar o país na prosperidade eterna. É a escolha de um mal menor, com quem temos menos divergências e que consiga governar ou presidir com estabilidade e com respeito pelos valores fundamentais. Que seja esta a escolha dos portugueses no dia 24.