Artigo de Opinião Opinião

Um cocktail de ciência e religião, servido no bar da escola

O exercício reflexivo, puramente filosófico, sobre a conjugação entre a ciência e a religião, deixa antever grandes dúvidas quanto à compatibilidade destes dois conceitos. Não enquanto áreas do conhecimento isoladas, mas no exercício em simultâneo e competente do investigador. A escola abre espaço ao questionamento: será pacífica a convivência entre a subjetividade de uma crença religiosa e a factualidade e objetividade de uma ciência experimental?

O desejo e a necessidade do ser humano na obtenção de conhecimento é algo que o distingue das outras espécies e o carateriza enquanto indivíduo neurologicamente complexo e evoluído. A ciência, conhecimento científico pautado por teorias, testadas, comprovadas e aceites por uma comunidade científica, desenvolve-se e evolui num determinado contexto socioeconómico. É ela que permite compreender como funciona o mundo e encontrar soluções para os problemas reais do quotidiano de uma sociedade em permanente transformação. Tem, por isso, um valor social fundamental. Com uma metodologia própria, a ciência constrói e valida o seu saber a partir da tecnologia ao dispor, permitindo-lhe a sua constante evolução. No entanto, a ciência tem e terá sempre limites que impossibilitam o Homem de obter respostas para todas as suas inquietações. Por esta mesma razão, a ciência torna-se desafiante e estimulante para quem a pratica, mantendo-se focado e de forma incessante, à procura de explicações para o “porquê” e para o “como” dos fenómenos.

Se, por um lado, a ciência não esgota as questões da Humanidade, a religião procura dar uma explicação ou significado para os mistérios da Natureza, dando sentido às relações com os outros e à fé de cada um. Algo que nos mantém mentalmente inspirados num poder e conhecimento divinos, muito para além do saber humano ou da realidade terrena. A fé não é algo que se explica como um qualquer fenómeno ou processo pacífico de entendimento, apenas se vive e se sente. Deus é algo invisível que transcende o comum mortal, mas que o apazigua na ausência de respostas objetivas. A crença num Deus que tudo explica e tudo justifica nada tem de ciência ou científico, mas é igualmente impactante e indispensável ao Homem para a “compreensão” das razões comprováveis que ele próprio não alcança. À religião são associadas as questões filosóficas do tipo “Porquê?”, enquanto a ciência se ocupa das perguntas objetivas do tipo “Como?”. A ciência dá-nos provas credíveis de “como” funcionam as coisas, de forma racional e objetiva, através de teorias e hipóteses que tornam o conhecimento amplamente aceite.

Pessoalmente, enquanto crente numa fé divina, ponho de lado qualquer fanatismo ou aceções à letra para sublinhar o espaço de espiritualidade de cada um e o direito à interpretação individual das escrituras bíblicas. Entendo a riqueza histórica das descrições do livro sagrado como acontecimentos e experiências pessoais ao longo da vida, razão pela qual acredito que a opção pelos caminhos da fé não anula ou compromete a atividade científica do investigador, antes pelo contrário, a enriquece e a torna mais humana. A existência de cientistas religiosos ao longo da história da ciência é a prova da relação pacífica entre a crença religiosa e o saber objetivo de quem promove o conhecimento científico. Galileu, Gregor Mendel, Isac Newton ou Louis Pasteur são apenas alguns bons exemplos.

Mas, seja a “fé” na ciência, a crença religiosa ou a espiritualidade de cada, o importante e enriquecedor é que a discussão seja naturalmente incentivada e promovida. Na escola, espaço perfeito para a reflexão, provoca-se a inquietação e induz-se o questionamento dos mais jovens, perante aspetos aparentemente imiscíveis. Um cocktail filosófico de ciência e religião é “servido” no bar e o debate, nem sempre pacífico de entendimento, torna-se claramente envolvente e profundo. Refletir sobre a reflexão de quem é crente e produz ciência é um exercício de escuta interessante que nos obriga, desde logo, a um entendimento das razões pessoais que motivam a prática do cientista. Um compromisso pacífico e viável com a sua identidade religiosa torna inevitável o nosso reposicionamento face às opiniões proferidas. Concordemos ou não com as opiniões, saber encontrar espaço para a coexistência de ideias e, eventualmente, pontos comuns entre as áreas expressas é o desafio do diálogo aberto entre os indivíduos, sem preconceitos ou constrangimentos para que cada um se sinta pleno de pensamento e liberdade de expressão. A escola é, e será sempre, fundamental para o exercício orientado, mas simultaneamente autónomo e opinativo dos jovens, criando oportunidades de estímulo à sua participação informada e consciente. Refira-se, claro, que a condição essencial de envolvimento sério em todo e qualquer debate é aprender a ouvir para poder ser livre de escutar e agir. A ação de cada um tem que convocar a liberdade do outro para ser merecedor da sua própria liberdade de intervenção!… Este é o papel da escola, ensinar a escutar!…