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Da contemporaneidade: o virtual

Pode-se argumentar que se a internet é um mundo, então tem conteúdos bons e maus e que este assunto cai em falácia ao pensarmos na responsabilidade do utilizador. Mas e o utilizador que apenas gosta de ver determinados conteúdos e que formata os anúncios e interesses de acordo com as suas preferências e escolhe mais ou menos voluntariamente ver as notícias que lhe agradam mais, os posts que lhe dão mais prazer, a informação que maior felicidade lhe traz? Não estará a privar-se, em parte, de crescer e de se desenvolver enquanto indivíduo e cidadão?

À medida que a tecnologia acelera o tempo em que vivemos e a maneira como vivemos, o ritmo das relações pessoais, afetivas e sociais também se intensificou. Criou-se a internet e pouco depois as redes sociais, espaço virtual para um convívio fácil, ilusório, lugar esse em que a vida e a experiência pessoais se tornaram num troféu através de um gesto de exposição constante que não passa de um ato de vaidade.

Mas o conforto dessas relações pessoais, sociais, íntimas e afetivas não é o mesmo. O espaço de partilha, que poderia ser proveitoso para todos se bem utilizado, engendrou um círculo vicioso em que prepondera o egoísmo, a opinião superficial, a caixa de comentários regida pelo ódio ou pela indiferença, a política gerada de e para as massas; enfim, a morte do espírito crítico.

A privacidade, também ela, deixou de ser um valor pela qual regemos as nossas experiências, mas numa moeda que pretende ter apenas a cara, ignorando a sua coroa, na medida em que espiamos, mas não queremos ser espiados. E o caráter viciante da internet e das redes sociais apenas aumenta o problema, assegurando a continuidade deste sistema.

Todos estes elementos têm gerado uma existência virtual em que predomina a ansiedade. Passar horas sem fim a navegar num feed em que se veem sempre os mesmos conteúdos possibilita a sensação de inutilidade no indivíduo. O desgaste emocional não termina aqui. Perdemos tempo – que é, seguramente, uma das poucas coisas de valor que possuímos – e esquecemos os nossos interesses em produzir algo na área com a qual nos identificamos. E quando nos sentimos mais negativos, um tanto ao quanto deprimidos, as conversas emocionais com os amigos simulam a facilidade de contacto, embora não consigamos dizer cara a cara o mesmo que dissemos online.

Pode-se argumentar que se a internet é um mundo, então tem conteúdos bons e maus e que este assunto cai em falácia ao pensarmos na responsabilidade do utilizador. Mas e o utilizador que apenas gosta de ver determinados conteúdos e que formata os anúncios e interesses de acordo com as suas preferências e escolhe mais ou menos voluntariamente ver as notícias que lhe agradam mais, os posts que lhe dão mais prazer, a informação que maior felicidade lhe traz? Não estará a privar-se, em parte, de crescer e de se desenvolver enquanto indivíduo e cidadão?

Por isso é tão preocupante ver crianças de dois, três anos com tablets e telemóveis que, mesmo embora pertencendo aos pais, irão, certamente, fazer com que elas desenvolvam uma dependência incontornável e sem precedentes. Nunca, até hoje, vimos uma ferramenta que estivesse a mudar os nossos hábitos, valores, maneiras de pensar e estilo de vida como a internet, pelo que é necessário que se comece a avaliar o impacto que os telemóveis, tablets e computadores têm no bem-estar social e psicológico das crianças que os utilizam assídua e constantemente. Os estímulos que elas recebem apelam, na sua maioria, para a passividade, visto que expõem conteúdos de vídeo, som e imagem a uma velocidade que não permite um pensamento desenvolvido, aprofundado e coerente sobre eles.

Este é o modo contemporâneo de formatar mentes. Viciando-as desde cedo a receber sem produzir, a absorver na vez de se refletir, a expor uma vida inteira sem olhar a privacidade ou o perigo de se saberem determinados dados. Um modelo bem perto do ‘Big Brother is watching’ de George Orwell.

 

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