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A opinião sobre assédio

Ultimamente o tema do assédio tem sido algo bastante quente nas redes sociais. Ora é porque uma rapariga partilhou um momento em que alguém se aproveitou de uma situação, ou que foi perseguida, ou filmada por um estranho na rua, entre outras situações infelizes. Como quase tudo que é partilhado nas redes sociais, assuntos destes geram bastantes comentários e pontos de vista muitos diferentes: daqueles que, por um lado, passaram por situações semelhantes, outros que simpatizam com a situação e, infelizmente, também por aqueles que nunca enfrentaram um cenário destes e que nunca sonharam sequer com isso. Digo “infelizmente”, não porque nunca poderão entender o que é passar por isto, mas sim porque a maioria de comentários ignorantes vem deste ramo de pessoas que mostram não se importar minimamente com as vítimas.

Este tema provoca discussões acesas sobre o que está correto e o que não está, sobre a linha onde uma ação é assédio ou apenas um gesto inocente e muitas vezes é difícil distinguir quando um estranho está de facto a ser simpático ou quando possui intenções mais maliciosas. No entanto, no meio de tantas discussões que assisti, acho incrível que, em pleno 2020, ainda se tenha a necessidade de explicar a alguém o que significa ter consentimento e, em geral, formas de lidar com outras pessoas. Pensava também que em 2020 não seria preciso relembrar alguém o que são limites básicos enquanto estamos com outra pessoa que mal conhecemos.

Ainda não fui capaz de entender o porquê, mas várias pessoas tentam desvalorizar ao máximo o que é o assédio e parecem acreditar que este existe apenas em casos bastante específicos e considerados mais graves, como, por exemplo, com frases e expressões explícitas ou quando alguém é tocado sem o seu consentimento. 

Sendo mulher, a minha visão mantém-se maioritariamente a defender as outras mulheres e a falar desta experiência talvez como muitas mulheres falariam e já falaram sobre isto. Certos homens não acreditam que o olhar é uma forma de assediar alguém e isto porquê? Porque supostamente o olhar é uma coisa inocente e que, no fundo, não está a causar danos nenhuns, porque é “só olhar”. Não é incomum ouvir uma rapariga dizer que passou por um grupo de gente e reclamou de alguém estar a olhar muito, assim como não é incomum ouvir um homem dizer “já não se pode olhar?” ou “Se eu olhar 5 segundos estou a assediar alguém?”. O problema obviamente não é o olhar em si, afinal todos temos olhos na parte da frente da nossa cara e observamos tudo o que nos rodeia. No entanto, até que ponto uma pessoa não tem a noção de que um olhar durante largos minutos é capaz de constranger alguém e ainda por cima não ver o que se encontra de errado com isso? 

Causa-me simultaneamente muita impressão ver mulheres a atacar outras mulheres por reclamarem terem sido assediadas na rua. Comentários como “estás toda decotada estás à espera de quê?”, “devias era levar isso como um elogio”, “os homens assediam-te e és feia, imagina se fosses bonita” e muitos outros igualmente tristes. Honestamente, isto já nem se trata de feminismo e apoiar outras mulheres e etc., apenas a solidariedade alheia, pois quase posso apostar em como estas mulheres que fazem este tipo de afirmações, também em algum momento da sua vida já foram assediadas e possivelmente nem estão conscientes de tal. 

O ponto aqui não é propriamente a gravidade do assédio ou não, a questão é que isto é errado. A partir do momento em que uma pessoa se sente desconfortável com o que quer que seja, desde um olhar, a uma piada sexual, por exemplo, mesmo que não considerem que tenha algum mal, a verdade é que nem toda a gente vê as coisas da mesma forma e é exigido o mínimo respeito e que se dê fim à situação.

O assédio não é só uns olhares, comentários e toques inapropriados, chega a ir além disso. O assédio é igualmente a vergonha que as mulheres sentem quando se encontram nessa situação, a ansiedade e a procura do método de escape perante esse momento tão desconfortável, é o medo que uma ação “mínima” escale rapidamente para algo muito mais grave, como é a violação. 

Culpar a vítima ou embaraçar a mesma, está tão enraizado na sociedade que vai ser bastante difícil algum dia quebrar esse ciclo. Já paramos para pensar porque é que a vítima é sempre aquela que tem vergonha de contar o que lhe aconteceu num caso tão grave e o agressor é sempre aquele que anda misturado entre nós a viver a sua vida de forma tão normal? Já paramos para pensar por que é que é mais fácil dizer a uma rapariga o que deve fazer para evitar ser assediada e depois muitas vezes se falha em ensinar a um rapaz o que são limites e consentimento? Isto realmente é merecedor de uma reflexão, seguida de medidas para uma mudança no comportamento. 

Não sei quantas vezes será necessário repetir isto, mas ninguém merece nem escolhe ser assediado. Não tenho problema em repetir até que fique enraizado na sociedade que a culpa não é de quem acontece as coisas. A vítima não tem culpa de estar a viver a sua vida de forma livre e tranquila e, de repente, aparecer alguém que acha que tem mais direitos que o comum e que pense que pode chegar à beira de alguém indefeso e a perturbar desta forma. Para mim, nunca será cansativo ou repetitivo demais proteger tanto uma rapariga de ser assediada assim como demonstrar que sair à rua com uma roupa mais reveladora é perfeitamente normal. Nunca me irei cansar de defender o meu direito de usar o que quero, de dizer o que quero, de postar uma fotografia nas redes sociais e acima de tudo não me irei cansar de usufruir do meu direito de ser livre.