Crónica Opinião

Ainda vivemos na Terra?

A minha geração ainda teve uns segundos onde as redes sociais não eram o mais importante. Onde havia coisas mais divertidas para fazer ou onde se faziam referências que não implicavam o uso do inglês, onde estar “aqui, agora” ainda valia a pena. 

Faço parte da primeira geração onde as tecnologias da informação já existiam mais ou menos como as conhecemos hoje. O fluxo de informação nunca foi tão intenso, tão rápido, nem tão caótico como nos últimos vinte anos. Conseguir a resposta a uma pergunta que tenhamos, nunca foi tão simples como na atualidade. A diversidade e a quantidade de informação aglomerada num só lugar, em tempo algum, foi tão extensa. 

Sabemos que os sistemas pelos quais regemos as sociedades do mundo, não passam de uma construção humana. O valor que atribuímos ao dinheiro, os sistema judiciais, os direitos humanos, a noção de pedaços de terra divididos em territórios aos quais demos o nome de países, fomos e somos nós, humanos, que os criamos. Criámos um bolha na qual, uns mais felizes que outros, sobrevivem décadas após décadas. É uma bolha com imperfeições que tentamos melhorar, que lutamos para melhorar, onde muitas vezes morremos a tentar fazê-lo. 

Nos últimos anos criámos outra bolha. Vivemos numa bolha, que por nascermos numa sociedade somos automaticamente inseridos, e no entretanto decidimos acrescentar outra. Resta refletir no nível de consciência desta decisão. 

O aglomerado de informação que podemos encontrar na Internet, assim como o valor, cada vez mais elevado, que damos às redes sociais criaram um novo universo. 

(Preparem-se para o sermão da avó!) 

Trocámos o viver no presente, no local em que nos encontramos, para viver através de ecrãs, onde ver o live das celebridades do outro lado do mundo, as modas correntes e seguir as vidas das nossas pancas ou dos nossos exs no Instagram, perfaz a essência dos nossos dias. Vivemos uma vida de constante validação, através do número de gostos e comentários, seguidores ou amigos. 

Vivemos também num mundo onde podemos discordar (quase) livremente, tendo estas discussões conquistado também o palco online. Mas nestas, não é preciso dar a cara, não é preciso olhar nos olhos. Podemos discordar sem respeito pelo o outro. Na vida (aquela física e real), também podemos discordar sem respeito, também podemos tratar mal quem não gostamos, embora a probabilidade de sair da situação sem levar um chuto no rabo, passar a ser bastante mais reduzida. As redes sociais servem-nos como escudo, enquanto simultaneamente, nos ajudam a esquecer que no outro lado do ecrã também está uma pessoa. 

Tudo o que vemos à nossa frente, nos nossos ecrãs, são produtos acabados: nos anúncios, nas fotografias dos nossos amigos, nos tiktoks. Só vemos o produto final de uma longa cadeia de produção. A cadeia? Pinta-se de transparente e desaparece. Assim só pensamos no produto, pois o resto, não interessa. A realidade, por não ser tão atraente, não costuma fazer muito dinheiro ou dar tantos seguidores. 

As redes sociais tornaram o nosso mundo físico mais pequeno. Vivemos todos juntinhos, todos a par dos problemas uns dos outros, quer estejamos na casa ao lado, quer no país geograficamente oposto. Isto tem muitas coisas boas. A responsabilidade social aumenta, tendo muitas injustiças maior possibilidade de serem realçadas e eventualmente abordadas. Por outro lado, tiram-nos de onde estamos. Desconcentram-nos das injustiças que acontecem mesmo ao nosso lado, dos problemas que afetam as vidas de quem vive, realmente, próximo. Perdendo a nossa localização geográfica, cria-se também uma distância, principalmente emocional, entre nós e a terra que pisamos, entre nós e as pessoas com quem vivemos. 

Carregamos tudo e mais alguma coisa para o éter da Internet. Já só falta chamarmos a empresa de mudanças para nos mudarmos para lá também. A nossa mente já lá vive. E este é o problema. A nossa vida ocorre essencialmente dentro da nossa cabeça.

Sabemos que para sobrevivermos no nosso planeta, nesta época de ameaça, temos que mudar. Que a temos de salvar, para nós. A Natureza haverá de continuar sem nós a habitá-la, até que o Sol expluda. Mas se queremos sobreviver, enquanto humanidade, então tem de haver mudanças. 

Mas se vivemos no éter da Internet, e não na Terra, nesta terra que temos por baixo dos nossos pés, como vamos algum dia mudar? 

“Só se lembra dos caminhos velhos, quem tem saudades da terra” – Zeca Afonso

Sei que tenho saudades da Terra. O meu corpo sabe-o antes de mim. 

Tenho saudades de algo que penso não ter vivido, nostálgica por uma sensação, que nunca me percorreu. 

Neste hiato que a quarentena nos permitiu, mergulho num passado que não é meu. Nos caminhos velhos em que nunca pus os pés, mas que ainda procuro nos mapas do mundo. 

Procuro os caminhos da consideração e do reconhecimento, onde olhamos para a comida que nos chega à mesa e pensamos na terra que a nutriu, no agricultor que a cuidou, no trabalhador que a empacotou, naquele que a fez chegar aos supermercados. Onde pensamos nos materiais de que as nossas roupas são feitos, nas pessoas que os extraíram, naquelas que os transformaram, em quem idealizou aquela peça, nas que a coseram, nas que a empacotaram, nas que a fizeram chegar até mim. 

Os caminhos onde reconhecemos o trabalho e consideramos o esforço exigido. 

Tenho saudades da Terra e olho para os caminhos velhos com esperança. De que a simplicidade de então nos permitirá a proximidade com Aquela que nos dá vida. Acreditando que é esta proximidade, este largar do nojo e medo irracional – dos bichinhos, das plantas, da sujidade – o abrir braços ao desconforto e à incerteza, que nos vai dar força para a caminhada que há de vir. 

A Terra nos espera, de braços abertos, para quem a quiser ver e ouvir.