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Como Perder um País: Os sete passos da democracia à ditadura

Há livros que nos transformam, que nos movem e nos acompanham para toda a vida. Mais do que uma leitura deste tipo, "Como perder um país" é um livro que nos acorda para a realidade inevitável que é o alastramento caótico dos movimentos políticos populistas.
Olhando para o mundo que está cada vez mais pequeno podemos evitar cair na mesma armadilha bem artilhada, mas isso apenas se sucederá "agindo juntos no meio da arena, transformando-a numa ágora global.".

Ece Temelkuran é a autora da obra que pode salvar uma nação começando por elucidar “quem mais ordena”. Nascida na Turquia, em 1973, na cidade de Esmirna, tornou-se numa das mais aclamadas e premiadas romancistas e comentadoras políticas do seu tempo. Foi distinguida mais do que uma vez como a colunista política mais lida da Turquia e é considerada uma das dez pessoas mais influentes nas redes sociais. Felizmente, incorpora a sua capacidade em “influencing” de forma a iluminar as setas do caminho até ao populismo, para que não se escolham mais determinados atalhos.

Em Portugal, a primeira edição surgiu em maio de 2019 e eu não hesitei em comprar o livro. Sentia que o título tinha a pujante força da verdade. A conceção de um cenário em que se perde um país é dura, tal como é a de perder qualquer direito que tomamos por garantido. Contudo, o país é uma amálgama de conceitos embrionários mais intínsecos à pessoa. Significa casa, nação, cultura, identidade, família. Como imaginar que o pedaço de terra que conecta o nosso “eu” interior ao “exterior” se pode despedaçar ao ponto de não reconhecermos mais os trilhos que nos indicavam a serenidade do lar?

Esta é uma das razões pela qual a leitura desta análise de Ece se torna tão essencial. As seguintes motivações prendem-se com o facto de que os movimentos de base populista não se esgotam na Turquia, tendo vindo a invadir os restantes países europeus de modo sorrateiro e calculista. Assim, este é também um livro de instruções com natureza contrária à costumeira, pois pretende ajudar na desconstrução dos discursos e estratégias dos líderes populistas que se regem, na maioria, pelas mesmas normas (ou pela falta delas) e práticas manipulativas revestidas por motivações nacionalistas, de justiça e engrandecimento da pátria.

A escrita não se perde num mar de conceitos técnicos e transcrições de estudos enlatados, ao invés, deparamo-nos com a partilha de experiências diretas da escritora; de episódios emotivos e de importância histórico-social da realidade que debatemos e que Ece viveu na primeira pessoa; uma linha consistente que nos mantém ativos e interessados à medida que começamos a perceber que em cada país há um líder igual (e que as cópias não são difíceis de detetar). Como escreveu o jornal canadense The Globe and the Mail: “O estilo de escrita está mais próximo de um humanismo emocional do que da ciência política fria e racional.”.

Partindo do golpe de Estado na Turquia, a 15 de julho de 2016, Ece toca no centro nevrálgico do resto do mundo que está ligado pelas mesmas tentativas de assalto à consciência do povo. Não podemos ser dominados por sentimentos de impotência que se desdobram na inatividade e isso torna-se claro quando, nesta obra, Ece nos grita a verdade desfocada: só nós podemos recuperar o nosso país.

Foi no programa mais famoso de debate político da Turquia que Ece proferiu a frase pela qual é automaticamente ligada quando se googla pela simples questão “Quando é que se tornou tão cruel?”. A autora faz uma análise e uma conclusão crítica sobre o facto da empatia se ter esvaído dos corações que estão “politicamente carregados com antipatia”, e é assustador quando me apercebo do quão simples é corroborar este argumento.

Foi crucial para mim, enquanto leitora proativa, perceber que vivemos numa era de materialização da banalidade do mal e que a nossa resposta a isso é apenas um tweet de indignação. Somos todos agentes políticos e, como tal, o nosso papel não é insignificante nem inaudível e Ece sublinha isso enquanto prova que a fragmentação de uma nação é um fator de perigo. Enquanto a oposição de extrema-direita não se faz ouvir, os recetores do populismo são uma unidade consistente de pessoas que se ergue e tenta calar os dissidentes sem recorrer à lógica. Ninguém se entende nem consegue estabelecer uma relação e as tensões vivem-se.

A própria democracia vive numa crise identitária e o seu processo de metamorfose não é tão óbvio quanto o universo Kafkiano, mas pode ser notado se tivermos esta bíblia em mão, lentes analíticas sob os olhos e capacidade de escavar a mente por de trás de palavras que soam a alarme sem fumo que o justifique.

Não queiramos perder o nosso país!

 

Márcia Branco