Crítica Opinião

Adolfo Luxúria Canibal e Krake

No passado dia 2 de Agosto repetiu-se o que Adolfo Luxúria Canibal tinha dito que não se ia repetir. Uma performance que já conta com um ano de existência e que se estreou no ZigurFest'19 a 24 de agosto no Castelo de Lamego, supostamente para mais não. Desta vez o palco foi o da Expolima em Ponte de Lima e havia regras para se assistir ao espetáculo. Não retirar a máscara, levantar-se da cadeira apenas para ir ao quarto de banho e não arrastar cadeiras eram apenas algumas delas.

No passado dia 2 de Agosto repetiu-se o que Adolfo Luxúria Canibal tinha dito que não se ia repetir. Uma performance que já conta com um ano de existência e que se estreou no ZigurFest’19 a 24 de agosto no Castelo de Lamego, supostamente para mais não. Desta vez o palco foi o da Expolima em Ponte de Lima e havia regras para se assistir ao espetáculo. Não retirar a máscara, levantar-se da cadeira apenas para ir ao quarto de banho e não arrastar cadeiras eram apenas algumas delas.

Adolfo Luxúria Canibal, vocalista dos Mão Morta, junta-se novamente a Pedro Oliveira [Krake], baterista dos peixe:avião e dos OZO para contar cinco histórias da sua autoria. Voz e percussão formam aquele duo instrumental extremamente contemporâneo numa dinâmica em que tanto as histórias determinam o ritmo, como o ritmo dá ênfase e tonalidade às histórias. Os meus textos favoritos continuam a ser a do Crespos, desde logo a primeira a ser ouvida, e a de Michel Legrand da International Designs, a que fecha o espetáculo. As três restantes, que se encontram no centro da performance, são abruptas no seu desenlace, sendo esta estratégia diferente da das demais histórias.

«Há exatamente trinta e quatro anos, seis meses e sete dias», assim começa a narrativa do «Crespos», pessoa pacata, mas que recebe olhares de soslaio por suspeitas de ser informador da PIDE. Este é o começo de uma história bem estruturada, bem escrita, com um ritmo preciso, alguma estranheza – daquelas boas – com um ótimo formato. Pode-se dizer que o ritmo da bateria e a cooperação entre ela, a voz, e os gestos foram desenhados uns para os outros. O desenlace fantástico é a cereja no topo do bolo. A personagem solitária, simbólica do quanto calamos e não deveríamos calar – ou deveríamos? – representa a agonia dos silêncios que teimamos em manter.

A história final, sobre João Silva e Michel Legrand, revela algumas particularidades das atitudes do povo português perante o mercado num tom de seriedade que chega a ser humorístico. Não há como resistir à gargalhada do slogan: «I love fuck you». Esta narrativa é contada em primeira pessoa, pelo que Adolfo Luxúria Canibal deu ênfase ligeira à postura teatral, que fazia acompanhar a palavra e o ritmo que Pedro Oliveira engendrava.

As restantes narrativas, um pouco desprovidas de entusiasmo literário, são muito curtas e sintéticas, chegando a roçar o superficial. A piada do espetáculo é a de seguir com atenção o mistério do enredo, procurando desvendar o desenlace através da combinatória do verbal com o rítmico. Ao repetir o espetáculo – traindo o que outrora fora afirmado – a aura da performance como que se perde por conta da memória, principalmente nas histórias que menos têm para dizer – a de António e Maria, casal condenado; a de «14» e a de um anónimo que não sabe o que acontecera na noite anterior.

Em suma, Adolfo Luxúria Canibal e Krake é um espetáculo para não repetir, como outrora tinha sido prometido. Caso se veja a performance uma segunda vez, o ato narrativo perde a sua força, visto que é engendrado para efeitos imediatos no espectador, vivendo quase exclusivamente disso. Só nos resta mesmo reconduzir as forças percetivas para a percussão. O problema: a combinatória entre o verbal e o ritmo não permite a sua dissociabilidade.

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