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Falar de corpos reais nunca é demais

Somos todos feitos da mesma massa, o molde é que é diferente. Atualmente, quer-se tanto passar uma mensagem de integração que se culmina a enfatizar de modo obsessivo o que até agora era colocado " à margem". Falo de padrões associados à beleza e de que como um frenesim em tons mais folclóricos pode fazer extrapolar o conteúdo que se pretende, acarretando com isso efeitos preversos. Afinal, somos o que comemos ou também o que fazemos?

Beleza: Nome comum abstrato, conceito variável de acordo com o observador; caracteriza o que é agradável no ato de pousar o olhar.

Beleza clássica: Padrão mutável ao longo dos tempos e que define uma estética específica.

Concordemos ou não com as definições sempre ambíguas, equívocas e pluriversais que apresentei acima, penso que é de entendimento conforme que o que está à superfície do nosso âmago pode ditar parte da nossa confiança, autoestima e bem-estar físico e mental.

De facto, é devido, principalmente, a esta última característica que penso ser importante alertar os queridos leitores para um tema que tem invadido a linguagem corrente.

A forma física de cada um, bem como a própria estética é só uma característica dentro de umas quantas que cada pessoa, enquanto mundo individual, carrega em si. O facto de existir uma corrente ativa que pretende consciencializar as pessoas de que as imperfeições não determinam uma vida em escuridão; de que não há um mas vários tipos de corpos e cada um com uma luz própria; que cada organismo e metabolismo, ao trabalharem de modo diferente, determinam respostas diferentes ao mesmo feedback é motivo de rejubilo para uma geração que se atormentava por não vestir o 32.

Todavia, penso que este louvor ao que chamam de “corpos reais” extravasou o equilíbrio inicial e vem, agora, evidenciar como marca de bravura e padrão de beleza renovado pessoas com excesso de peso que expõem o corpo para assim romperem com os seus anteriores complexos, com os seus ex-bullies e, se possível, alimentarem-se elogios que vão pingando ao som dos gostos.

Ora, não me oponho a que cada um partilhe aquilo que pretende, que as pessoas o apoiem e que se fomente uma debate a morta voz (mas a vivo teclado) sobre temas mais ou menos fraturantes. No entanto, empoderar estilos de vida, hábitos ou formas físicas que se denotam pouco saudáveis parece-me pernicioso e nefasto para quem deixa de se entender num estado alarmante.

É indubitável que ter excesso de peso não é saudável e a perpetuação deste estado não conduz a um cenário luminoso no que diz respeito ao quadro clínico da pessoa que assim se mantém, por isso, é importante entender o foco da mensagem que se está, constantemente, a estender como uma carpete vermelha para que a ignorância passe.

O que nos é aprazível ao olhar é um conceito íntimo, pessoal e, assim sendo, altamente subjetivo e, na verdade, não é isso que importa discutir já que, gostos à parte, o respeito pelo outro é o pilar estruturante de uma interação civilizada e madura entre gentes.

Todavia, quando se destaca a singularidade e beleza de cada corpo, também deveria ser sobressaída a sáude física e mental que, enquanto elementos que se conectam de um modo profundo, são as verdadeiras alavancas para uma melhor qualidade de vida. Ao invés de “corpos reais” poderíamos falar de “corpos letais” já que se nos entregarmos ao facilitismo e à inércia extrema somos condenados à prisão da nossa própria matéria que nos vai impedindo de voar com a mesma altitude.

O direito à autodeterminação é um direito constitucionalmente consagrado, contudo, a “liberdade” não existe enquanto verdade plena e alheia a condicionalismos.

Assim, se, de algum modo, a forma como uma maioria encara e aborda certos temas pode influenciar a nossa forma de atuação e pensamento então que se celebrem hábitos que nos beneficiem a todos para que, ainda que abracemos as nossas especificidades físicas, não esqueçamos que para o bem do nosso organismo “aceitar” a nossa realidade, estagnando-a, não conduz a resultados risonhos.

A vida existe em movimento e esta filosofia assente na resignação parece corroborar com uma atitude de passividade em relação à forma como nascemos. Contudo, é possível moldarmo-nos até perfazermos a melhor versão de nós próprios.

Posto isto, se unidos mais fortes somos, que se juntem vozes para normalizar as circunstâncias ou factos que nunca deveriam ter sido alvos de desdém e para enaltecer aquilo que releva de verdade, para uma vida, essa sim, mais bonita sob todas as perspetivas.