Artigo de Opinião Opinião

Racismo: A luta no presente com o fantasma do passado

A evolução da mentalidade e aceitação das mais diversas culturas e diferentes etnias sempre foi algo com o qual a humanidade teve dificuldades a atingir, e mesmo hoje em dia, apesar de vivermos numa sociedade cada vez mais tolerável, vários inocentes ainda são vítimas de preconceito.

157 anos depois da abolição definitiva da escravatura nos Estados Unidos da América, este continua a ser um dos países onde se presenciam atos de racismo e violência contra as minorias. Ainda que vivam num país com uma constituição que decreta a igualdade de deveres e direitos, isto não se faz sentir por aqueles que são tratadas de forma diferente devido à diferença da cor de pele ou cultura.

Numa sociedade tão violenta como a dos norte-americanos, o preconceito pode ser ainda mais perigoso quando é defendido por pessoas a quem são concedidos poderes para proteger a população e usam esses mesmos poderes para justificar ataques de ódio como técnica de defesa. Este abuso do poder por parte polícia é vergonhoso e a própria direção da força policial dos Estados Unidos da América reconhece que é necessário haver mudanças no sistema e na formação policial.

A desvalorização dos direitos e das vidas das minorias é uma situação recorrente. Todos os anos morrem vários indivíduos nas mãos de um agente da polícia e existe mais 2,5% de probabilidade de acontecer a um individuo de cor de pele negra do que a um individuo de cor de pele clara. Existe uma clara falta de fé na força policial dos Estados Unidos por parte dos habitantes. A imprevisibilidade por parte da força policial provoca um medo generalizado na população norte-americana, principalmente nas pessoas de cor, que já estão habituadas a serem alvos de maus-tratos e menosprezo, e por vezes até mesmo mortas. Por isso, ainda que não aconselhável, não é de admirar que o seu primeiro instinto seja fugir assim que avistam agentes da polícia, mesmo que sejam completamente inocentes.

A impressão que dá é que o copo esteve a encher ao longo dos últimos anos e, ao presenciar a morte de George Floyd, o copo transbordou e o povo disse “Basta!”. O choque e o tempo de exposição de uma gravação de precisamente oito minutos e quarenta e seis segundos no qual fica registada a perda de mais um individuo de cor negra pelas mãos de um polícia indiferente e inabalável aos pedidos de um homem que lutava pela sua vida incentivou o povo americano a manifestar-se de forma tão barulhenta, desencadeando assim um dos movimentos mais marcantes da história.

O movimento “Black Lives Matter”, em homenagem a George Floyd e a outras vítimas mortais de atos racistas, gerou vários protestos a nível mundial, muitos deles violentos, que resultaram em vandalizações de edifícios, carros e, talvez do que mais me incomoda, património cultural. Além de desnecessários e sem sentido nenhum, considero estes atos derivados de um desrespeito pela cultura, e de uma enorme ignorância histórica. Estas estátuas homenageavam indivíduos que contribuíram positivamente para a história dos países correspondentes e eu acredito que as boas conquistas e contributos relevantes de um ser humano não devem ser esquecidos ou desvalorizados por causa de algo que era uma realidade de uma época em que esta situação era comum e aceitável.

No meu ponto de vista, ninguém beneficiou desta situação e serviu apenas para marcar negativamente um movimento de imenso valor e respeito. Da mesma forma que não consigo compreender a decisão de alguns canais televisivos de parar de exibir filmes e séries televisivas que retratam épocas históricas em que a escravidão estava presente e era uma das caraterísticas dessa sociedade.

Eu penso que é importante termos a capacidade de conseguir distinguir o presente do passado. Eu não tenho dúvidas que o racismo é inaceitável e desprezável e, felizmente, muitas culturas da atualidade partilham a mesma opinião. No entanto, é fundamental que compreendamos que os indivíduos imortalizados nas estátuas vandalizadas ou destruídas viveram numa época em que o racismo biológico era aceitável e defendido por muitos indivíduos e vandalizar estátuas não vai alterar o passado do racismo, da mesma forma que preserva-las não vai incentivar o racismo no presente nem no futuro.

Todos sabemos que a história é feita de bons e maus momentos e, tal como nas nossas vidas, destruir tudo o que nos faça lembrar dos piores momentos das nossas vidas não vai alterar o passado. Eu acredito sinceramente que todos os eventos históricos, incluindo todas as catástrofes, são essenciais para ajudar a criar uma sociedade cada vez mais forte, disposta a lutar pelos seus direitos e a defender as suas liberdades. Desta forma, quero também acreditar que, ainda que trágico, a morte de George Floyd não foi em vão e tenho esperança que alerte todas as pessoas para o medo e perseguição constante da vida diária das minorias e ajude a mudar esta trágica realidade.