Artigo de Opinião Opinião

Anormal é o novo Normal

Parecemos viver hoje tempos em que pensar sensatamente é errado e que o suposto é defender uma linha ideológica perversa e moralmente subvertida. Com a morte de George Floyd parece ter surgido mais uma “causa de estimação” para muitos internautas se mostrarem como morais e virtuosos. Ao mesmo tempo que fazem isso, contribuem para a banalização de completas alarvidades, contradizem-se a si mesmos e combatem tudo menos os verdadeiros problemas.

Olhemos primeiro para a contradição subjacente, não está em causa o ato ocorrido que pode, deve e terá de ser condenado, não obstante, custa entender que os mesmos influencers, a mesma comunicação social e as mesmas forças políticas em Portugal, mas muito mais nos Estados Unidos que há umas semanas diabolizavam quem saía à rua e imediatamente tomavam uma posição contra quem não era favorável ao confinamento, hoje são os primeiros a incentivar ao ajuntamento em enormes protestos.

Segunda questão e que dá força ao primeiro ponto, ao tomar este tipo de posições altamente radicalizadas e divisoras não só somos tudo menos morais e virtuosos como estamos a contribuir para o problema e a alimentar ideologias vazias. É verdade que sem justiça não há igualdade e é precisamente por isso que este ato deverá trazer as devidas repercussões nas instâncias adequadas, mas ao mesmo tempo não há igualdade sem autoridade. E quem ao mesmo tempo coloca fundos pretos nas redes sociais e depois fica calado, perante os motins e atos de vandalismo que podemos observar nada pode trazer à senda política ou ativista. Ao queimar e roubar lojas, queimam-se e roubam-se lojas de todos, incluindo de negros que pela sua condição sócio-económica no geral, tiveram de, provavelmente, lutar muito mais para ter aquilo que têm. Outra questão é a deslegitimação das forças de segurança. Quer queiramos quer não, em qualquer país as forças de segurança representam todos os cidadãos sem exceção. Reduzir a autoridade das forças policiais, só abrirá espaço para a intensificação dos atuais problemas. E, de facto, a narrativa de que a polícia norte-americana tem como alvo a comunidade negra é completamente falsa e desonesta. Segundo um recente artigo do Wall Street Journal, em 2019 foram mortos 9 negros desarmados. Ao mesmo tempo no que toca a tiroteios fatais contra elementos armados ou tidos com perigosos, membros desta comunidade foram alvejados numa proporção inferior à sua participação na taxa de criminalidade. Sim, há casos como o de George, mas esses são casos a ser julgados isoladamente, sem pôr em causa uma profissão tão importante para todos nós.

Olhando para o paradigma política, de facto há motivos para ficar preocupado. Enquanto as elites alimentam estas divisões para proveito eleitoral, as clivagens sociais intensificam-se. A retórica democrata começa a ser em boa parte anti-humana, assentando na crença de que a posição política e a validade das opiniões é sustentada pela cor e por outros aspetos externos. Chegam a ser deprimentes declarações como as de Joe Biden de que “não és negro se ainda não sabes em quem votar”, colocando a cor à frente de ideologias, valores e crenças. Igualmente preocupante e intelectualmente desonesto é comparar a atual situação da comunidade negra nos Estados Unidos com tudo aquilo que se passava nos anos 60 e antes. Negros não são impedidos de beber água da fonte, não são impedidos de se sentarem em determinados sítios, não andam em escolas separados nem sofrem de nenhuma dessas discriminações. Redling? Ilegal Construção de distritos eleitorais com base em presença de minorias? Recente polémica com vista a rever já isso para eleições futuras. O necessário destes movimentos é efetivamente atuar junto das comunidades, construindo lares mais estáveis, incentivando os jovens a prosseguir e dedicarem-se aos estudos e atuar no sentido de combater a criminalidade dos mais jovens, que vem a mostrar-se completamente desproporcional. Por cada protesto excessivo e sem qualquer nexo, os jovens de Chicago continuam a morrer em violência ligada a gangues e outro tipo de crimes e a situação destas comunidades deteriora-se. Se queremos falar de racismo, ódio e os resultados que geram olhemos para a comunidade judaica, número um de vítima em termos de crimes de ódio e ao mesmo tempo goza de rendimentos superiores à branca. O mesmo para a asiática, superior em termos formação e riqueza. Não existe tal coisa com privilégio branco, existem sim contextos sócio-económicos favoráveis e desfavoráveis, é isso que está em causa. O único privilégio que existe, e todos nós gozamos dele, é o privilégio ocidental que nos tem conferido vezes e vezes sem conta condições de vida nunca antes vistas na história.

Por cá, não é muito diferente, por cada caso semelhante, pomos em causa a polícia, apesar de muitas destas pessoas continuarem a confiar nos agentes da autoridade. Quando temos violência entre pessoas tidas como membros de minorias, ao invés de olhar e combater os problemas com medidas concretas deixamos passar no rodapé dos jornais. O nosso país nada ganhará com a importação de Identity Politics e tudo o que os outros têm de pior para oferecer, nem com ativismos vazios. Este tipo de problemas pede pragmatismo e uma política que de uma vez por todas não julgue pelas cores ou outras caraterísticas de grupo, mas sim pelos valores e atitudes. Não adianta ainda lançar uma nuvem de culpa sobre os portugueses e fazer uma interpretação com olhos do século XXI da nossa história na tentativa de a reescrever. Nós, portugueses não somos racistas. Comentários e piadas infelizes não são o mesmo que a falta de capacidade de conviver com todos, somos no geral um povo acolhedor e tolerante, mas é de admitir que, de facto, em breve muitos possam perder qualquer tolerância por quem do nada acusa os outros do pior que alguém pode ser.