Artigo de Opinião Opinião

Mas o racismo não

Em plena recuperação do confinamento dos últimos meses, que será mais uma nova adaptação à tão apelidada “nova normalidade”, resultante de (finalmente) uma mudança de pensamento, por outras palavras, uma aceitação da realidade. Há um vírus que veio para ficar e vamos ter de aprender a conviver com ele.

No entanto, surge um outro vírus – surgir não será o termo mais correto, dado que não surgiu agora, ele acompanha-nos desde o início, uns tempos esconde-se e outros manifesta-se, mostrando-se tal como é: frio, sem compaixão, totalmente despido de humanidade. Refiro-me ao racismo, ao ódio puro, à falta de humanismo no humano.

Por um lado, ondas de incompreensão, de alertas, de protestos, de chamadas de atenção, de posts, de lágrimas em direto; por outro lado, ondas de violência, de crime, de oportunismo político. No meio de ondas de tanta coisa, há apenas uma verdade: o racismo é real. Está entre nós, camuflado em piadas ou, sem qualquer medo de se mostrar, nas mãos daquele que tira a vida ao outro, apenas porque não o vê como ele é, uma pessoa, vê-lhe o tom de pele ou qualquer outra caraterística diferente da que acha “normal”.

Em pleno século XXI ainda não aprendemos que a diferença é das coisas mais belas que existe à face da Terra, enriquece as nossas sociedades, permite-nos completarmo-nos uns aos outros. Cada cultura, cada ser é diferente, tornando a vida uma diversidade contagiante e fascinante de descobertas e aprendizagens.

A diferença, seja do que for, não deve ser em caso algum pretexto para o ódio. A diferença deveria ser tão maravilhosa como é a igualdade porque, a meu ver, elas coexistem, são a força de uma sociedade. Todos temos os mesmos direitos e deveres enquanto cidadãos, aliás enquanto seres humanos, no entanto, todos temos as nossas diferenças, aquilo que nos torna únicos.

Quem defende que a diferença nos leva a direitos e deveres distintos, acredito que esteja profundamente enganado, ninguém é mais do que o outro por causa do tom de pele (refiro tanto esta questão porque, talvez seja, infelizmente, um dos fatores da maioria dos casos de racismo).

Precisamos de estar atentos e não esperar pelo próximo a perder a vida. Como já aqui afirmei o racismo, muitas vezes, está bem visível, outras, é dissimulado e esconde-se. Perdi a conta às vezes que me cruzei com pessoas que afirmam defender o respeito pelos outros, no entanto, em conversa, também dizem que seria de prever determinada situação acontecer a determinada pessoa porque tem determinado tom de pele, é mais do que normal, afinal são todos da mesma raça. O que será isto se não racismo?

É urgente lutar contra estas ideias que estão tão enraizadas, mostrando-se muitas vezes até de certo modo inconscientes, mas é preciso lutar contra elas. É preciso reaprender a ser, saber parar perante estes pensamentos racistas e preconceituosos, colocar-lhes um travão, lutarmos connosco próprios, com valores e ideias que nos foram incutidas.

Defendo uma aceitação da realidade, o mundo não está livre de ódio, manifeste-se ele da forma que se manifestar, mas acredito e luto todos os dias, nas pequenas coisas que estão ao meu alcance, por espalhar mais respeito e amor pelo outro. Luto contra os meus preconceitos, percebo-os e calo-os, erradico-os.

Quero deixar ainda claro que nestas palavras não comento ou discuto todas as formas de racismo, todos os casos desumanos que existem por aí, escrevo sobre uma de muitas realidades, mesmo que não seja a que a maioria conhece ou quer conhecer.

No entanto, deixo a certeza de que talvez o novo coronavírus seja um vírus com que temos de conviver, mas o racismo não.