Artigo de Opinião Opinião

Uma nota sobre o estado das residências universitárias da UP

O alojamento universitário tem um papel nuclear na vida de centenas de estudantes que, ao longo do ano lectivo, com a finalidade de prosseguir estudos, se vêem afastados do seu agregado familiar. O desinvestimento generalizado e as condições precárias das residências, com destaque para o Porto, não apenas o impossibilitam, assim como marginalizam aqueles que delas dependem. O momento em que vivemos apenas serviu para denunciar o desinteresse na resolução de uma situação incomportável que se alastra há anos.

Enquanto estudante deslocado, primeiro em Lisboa, depois em Coimbra e actualmente no Porto, sempre tive de recorrer ao serviço de alojamento universitário fornecido pelos Serviços de Acção Social (SAS) das respectivas universidades por que passei. Numas, mais do que noutras, a falta de condições estruturais, privacidade ou respeito pelo bem comum e alheio são a norma.

Se a cavalo dado, não se olha o dente, ninguém esperaria que, numa residência universitária destinada a suprir uma necessidade básica como a habitação em tempo lectivo, existisse algo para lá do mínimo nível de conforto (um conforto digno, diga-se). Muito menos quando os utentes de tal serviço nada mais são do que meros bolseiros.

Evidentemente que uma instituição como a Universidade do Porto está a fazer um favor aos seus alunos deslocados (não raras vezes, oriundos de agregados com graves carências financeiras) quando se compadece que todo um andar fique sem frigorífico durante meses a fio; ou quando, paralelamente, permite que cinquenta alunos, alguns estudantes internacionais a pagar valores de mercado, vivam sem aquecimento ou água quente durante semelhante período de tempo.

A Universidade do Porto faz um favor a toda a comunidade académica quando, numa das suas residências universitárias, negligência as directrizes da Direcção Geral de Saúde (DGS) e vota ao ostracismo aqueles que devia de forma categórica defender, não zelando pela higiene e integridade das suas instalações, permitindo a reiterada degradação dos seus equipamentos, muitos em estado ruinoso.

Por fim, resta-me acrescentar que enquanto não se repensar o alojamento universitário como muito mais do que quatro paredes, um tecto e um colchão para dormir, mas sim como um dos pilares fulcrais para o sucesso académico, entrosamento social e bem-estar físico e mental, a acção social nas universidades nada mais será do que um gigante com pés de barro.

 

[Texto escrito de acordo com o Acordo Ortográfico de 1945]