Crónica Opinião

“I can’t breathe”

Quanto tempo mais teremos de esperar pelo nosso próprio progresso?

George Floyd foi executado. O joelho de Derek Chauvin sentenciou-o à morte, sem direito a defesa, enquanto dezenas filmavam. Ao lado deste, Tou Thao, Thomas Lane e J. Alexander Kueng limitaram-se a olhar enquanto o seu colega, possivelmente amigo, perpetrava um homicídio.

“Não consigo respirar”. E de repente voltávamos a 2014, a Staten Island, enquanto Eric Garner, desarmado, era estrangulado por um polícia por estar a vender cigarros avulso. “Não me mate”. Mas o joelho de Chauvin só seria removido do pescoço depois de a ambulância chegar. Durante sete minutos asfixiou Floyd que, ao fim do terceiro minuto, já não se mexia.

Para além dos casos recorrentes de violência policial contra cidadãos afro-americanos, os linchamentos parecem ter regressado aos Estados Unidos da América. Ahmaud Arbery foi abordado, enquanto corria, por um pai e um filho, ambos armados, que o acusavam de ter invadido propriedade privada. Alvejaram-no mortalmente. O caso só teve repercussão após o vídeo do incidente se ter tornado viral.

Felizmente, segundo consta na opinião dos comentadores de jornais nacionais (os tudólogos), Portugal não é um país racista. Podemos estar descansados. Aproxima-se o 10 de Junho, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Com ele chegará o vigésimo quinto aniversário do homicídio de Alcindo Monteiro.

Alcindo, que se dirigia ao Bairro Alto para ir dançar, foi interpelado por um grupo de cerca de quinze neonazis. Foi socado e pontapeado, sendo depois arrastado pela Rua Garret abaixo. Repetiram a dose de purificação racial através da biqueira de aço das suas botas. Seriam encontrados tufos dos seus cabelos na sola dos sapatos de um deles. Mas Alcindo ainda estava consciente. Agarrando um objeto de cimento, atingiram-no duas vezes na cabeça. Finalmente inconsciente, um pisão no rosto selou a agressão.

Hemorragias sub-pleurais e sub-endocirdicas. Edema pulmonar. Graves lesões traumáticas crânio-vasculo-encefálicas. Lesão no tronco cerebral. Edema cerebral muito marcado. Fratura da calote craniana. Assim estavam descritos no seu relatório médico os efeitos devastadores da agressão. Menos graves mas semelhantes eram os de, pelo menos, mais nove agredidos naquela noite. Todos eles negros.

Portugal não terá, certamente, uma panóplia de casos tão violentos como os Estados Unidos da América. Mas tem indicadores graves de racismo biológico e cultural. Uns extraordinários 52,9% consideram que há raças ou grupos étnicos inferiores, segundo estudos europeus. Quem já tiver entrado num estádio de futebol estaria a mentir se dissesse que nunca viu e ouviu cenas de preconceito racial. O mais mediático dos últimos tempos é o caso de Moussa Marega, do qual já muito se falou, mas pouco se fez.

E o mais grave é precisamente isso. Não agir. Tou Thao, Thomas Lane e J. Alexander Kueng são tão culpados pela morte de George Floyd como Derek Chauvin. Estavam numa posição que lhes permitia agir. Que lhes permitiria evitar uma morte desnecessária. Mas ficaram a olhar. A conclusão é simples, ou somos ativamente antirracistas ou acabamos por ser cúmplices do racismo.

Uma narrativa recorrentemente defendida por certos elementos da política portuguesa é a de que estão a tentar corromper a aura dos Descobrimentos com o fantasma da escravatura. A corrupção da verdade provém dos que a querem tentar fantasiar e não dos que querem trazer uma verdade incómoda à luz do dia. A colonização e ocupação dos territórios africanos e sul-americanos foi sangrenta. A escravatura, ainda que à época banal pelo contexto sociocultural vigente na Europa, nunca será desculpável e é uma marca negra que temos de carregar na nossa História. Os seus efeitos ainda são notórios no subdesenvolvimento das nações africanas.

Nega-se o racismo porque aceitar que ele existe é assumir que estamos corrompidos. Os que assassinaram Alcindo, os que ainda celebram o 10 de Junho como o Dia da Raça, andam por aí. A cada dia sentem menos vergonha. E não tencionam mudar a sua postura. Mário Machado, que me tem bloqueado no Twitter desde que gozei com o facto de ter usado o nome da mãe para alugar o espaço no hotel SANA para aquele triste encontro de extrema-direita, será o nome mais sonante deste grupo. Mas nem por isso o mais perigoso.

No Chega, cujo ponto de exclamação omitirei por razões de sanidade mental, engrossam-se as fileiras com antigos elementos de partidos nacionalistas como a Nova Ordem Social. André Ventura, sedento de poder, parece ter visto nesta situação uma oportunidade de monopolizar a radicalização e apelar a novos públicos. Uma decisão da qual, mais tarde ou mais cedo, se arrependerá. Esperemos que antes de provocar danos irreversíveis ao país.

Mas o que me incomodou verdadeiramente foi a entrevista de Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS, à TSF. Não é prematuro condenar um ditador assumido. Não seria, sequer, prematuro condenar as atitudes de Viktor Órban pelas medidas impostas antes da pandemia. Agora, face a um líder xenófobo e homofóbico que se encontra a governar por decreto e a censurar fortemente a comunicação social, essa condenação parecerá tardia. Mas pela boca de “Chicão” não será ouvida.

A entrevista revela, finalmente, o verdadeiro caráter do antigo líder da Juventude Popular. O seu CDS equacionaria uma coligação com o Chega se o partido comandado por André Ventura largasse as medidas que lhe servem de bandeira. A resposta correta seria nunca. Há discordâncias que devem incompatibilizar que se pense sequer em equacionar cedências. Mas o desespero das sondagens fala mais alto.

Aproxima-se, mais do que nunca, a altura de decidir entre o que está certo e o que é fácil. Entre a justiça e os interesses pessoais. No fundo, entre a verdade e entre as mentiras que pretendem branquear os nossos erros. A crise económica que se avizinha dará mais cobertura às narrativas populistas que fornecem o maior consolo em alturas de desespero: alguém que arque com todas as culpas.

Não cedam. Nem consintam, pelo vosso silêncio, que eles cresçam. A tranquilidade que vos tentam vender é simulada. Enquanto o adversário tiver uma consciência a que se possa apelar, o seu combate pode ser pacífico. Mas o que nos espera à medida que deixamos que esse caminho se esgote? Talvez não sejam vocês os perseguidos hoje. Possivelmente também não o serão amanhã.

Mas esse dia, eventualmente, chegará. E, deitados no asfalto, com o joelho do opressor no pescoço, vão olhar em volta para os rostos dos que caminham indiferentes aos vossos apelos por misericórdia. Enquanto o mundo escurece, à medida que o oxigénio abandona o vosso cérebro, escutarão o silêncio indiferente de todos os que vos rodeiam. Porque não é a vida deles, é a vossa.

Já não são pessoas. São “os outros”. E já não haverá ninguém para lutar por vocês.