Crítica Opinião

Macbeth no pequeno ecrã

Face ao isolamento social que temos vivido, o Teatro Nacional de São João (TNSJ) tem promovido a partilha de inúmeros trabalhos antigos nas suas redes sociais e tem vindo a transmitir performances na íntegra durante o fim de semana. Ao longo destes últimos meses o TNSJ deu-nos a rever a encenação de Macbeth por Nuno Carinhas, adaptação que recebeu algumas críticas negativas aquando a sua chegada ao palco, há três anos. Dessas críticas destaca-se a de que a adaptação do drama de Shakespeare para o palco não fora contemporânea o suficiente.

Face ao isolamento social que temos vivido, o Teatro Nacional de São João (TNSJ) tem promovido a partilha de inúmeros trabalhos antigos nas suas redes sociais e tem vindo a transmitir performances na íntegra durante o fim de semana. Ao longo destes últimos meses o TNSJ deu-nos a rever a encenação de Macbeth por Nuno Carinhas, adaptação que recebeu algumas críticas negativas aquando a sua chegada ao palco, há três anos. Dessas críticas destaca-se a de que a adaptação do drama de Shakespeare para o palco não fora contemporânea o suficiente.

O propósito de um drama é precisamente o de ser encenado, pelo que a gravação de uma peça de teatro em filme é um bónus e não a sua condição essencial. Tendo esta premissa em mente faço em seguida uma recensão à performance de Macbeth, adaptada para a Língua Portuguesa e para o pequeno ecrã.

A tradução de Daniel Jonas é, na sua maioria, adequada, embora não seja perfeita. Dela tenho apenas a apontar que a primeira frase “O belo é feio e o feio é belo” (Fair is foul and foul is fair) não ecoou ao longo do texto como no original. Embora este seja, na sua aparência, um pequeno pormenor, o enunciado em forma de quiasmo promove a coesão do texto através de um princípio simbólico que não ficou, deste modo, sublinhado na encenação. Esta inversão do belo e do feio repercute-se ao longo da trama e transfere-se da dimensão estética para a da natureza, imprimindo na ação um grau de paralelismo que não foi frisado na versão em Língua Portuguesa.

A escolha de um cenário minimalista foi a mais adequada, deixando transparecer um toque do que era o teatro isabelino. A opção de colocar no chão grãos vermelhos simulando sangue de batalha situa-nos logo na ação do primeiro ato, exemplificando que no teatro o que importa não é só contar, mas também dar a ver.

A indumentária está, na sua generalidade, em concordância com o estilo da época. Porém, alguns adereços não se encaixam na caracterização das personagens, esses sim, por serem demasiado contemporâneos. No entanto, tendo em conta que estes outsiders são mais facilmente identificáveis em vídeo do que à distância de uma plateia, as golas modernas não comprometem a unidade do vestuário. Opções pertinentes do ponto de vista artístico foram a escolha de uma das bruxas usar um fato de negócios e a utilização de espelhos em cena, elementos estranhos, mas subtis, que podem prolongar o interesse do espectador sem provocar grande desconforto na apreciação estética da performance. Outros objetos como os microfones visíveis em palco poderiam ter sido melhor escondidos para a criação de um efeito de real; embora esta seja uma opção poética a ser tomada, ou não, pelo encenador. Resta, portanto, saber se isto foi um acidente ou uma escolha artística voluntária. Matar Macbeth em cena foi, por sua vez, uma escolha curiosa.

Os efeitos sonoros, desenhados por Francisco Leal, estão excelentes a início, mas exagerados quando modificam as vozes das bruxas; os jogos de luz, de Nuno Meira, ficaram perfeitos.

O vídeo, trabalhado por Fernando Costa, deixa muito a desejar. Foram adicionados efeitos de duplicação de imagens e acrescentaram-se sons de foguetes, tornando alguns momentos importantes do espetáculo em cenas do trivial. Se a peça não tem elementos contemporâneos suficientes, não é por modificarem o vídeo que automaticamente transformarão a performance numa adaptação hodierna. Não acrescentaram modernidade ao drama, aliás só lhe retiraram seriedade. Uma peça de Shakespeare é, em si, moderna. Um pormenor de louvar foi o plano que escolheram para captar a cena em que Lady Macbeth e o rei dialogam. Mostrar Lady Macbeth como sendo mais alta do que Duncan sugere imagisticamente um tom premonitório e simbólico.

Usar o corredor da plateia como recurso cénico é viável em palco, não funcionando bem em vídeo e não mostrar a inversão da natureza – acima referida – optando somente pela manutenção do diálogo não me pareceu a via mais confortável para o público, sendo-o, no entanto, para a encenação em si. O coro desarmonioso das bruxas, a dada altura da peça, foi uma (des)agradável surpresa.

A interpretação de diversos papéis levada a cabo pelos mesmos atores foi uma escolha inteligente e apreciei particularmente a ‘inversão’ histórica em que mulheres interpretam papéis masculinos. Uma escolha particularmente bem tomada foi a de Emília Silvestre para o papel de Lady Macbeth, cujo físico espelha, na íntegra, a descrição shakesperiana da personagem. Quanto às performances em si, a interpretação de Lady Macbeth (Emília Silvestre) roça a perfeição, após um começo pouco brilhante; a de Macbeth (João Reis), após uma entrada em cena brilhante, resvala a partir da visão do gume, tornando-se progressivamente mais hiperbólica e, por vezes, desastrosa nos momentos-clímax. Não considero que aumentar a velocidade na fala e o volume de voz seja uma boa maneira de mostrar raiva, indignação, culpa e outros sentimentos que a personagem expressa. As interpretações de Duncan (Jorge Mota), Macduff (Paulo Calatré), Malcolm (João Castro), Banquo (Paulo Freixinho) e das três bruxas (Joana Carvalho, Diana Sá e Sara Barros Leitão) foram boas.

Em suma, a performance é confortável de se ver no ecrã pequeno, uma vez que a coesão textual foi mantida e o trabalho artístico de Shakespeare foi respeitado.

Clara Maria Silva.