Artigo de Opinião Opinião

Os gostos discutem-se. E as normas também.

Ao nascermos numa sociedade estamos sempre sujeitos ao fenómeno da socialização. A socialização é o processo através do qual um indivíduo aprende a tornar-se um membro aceite pela sociedade, sendo influenciado por agentes como a família, os seus pares e os média. A diversidade existe através dos diversos processos de socialização, que acontecem nos diferentes espaços geográfico-culturais. Se algo é estranho para mim, sê-lo-á precisamente por não ter sido socializada com os mesmos valores de base. Importa notar que a socialização é um processo que difere da educação, por ser silencioso e maioritariamente inconsciente, criando disposições que orientam firmemente o indivíduo na sua vida para o que é tido como certo ou errado, aceitável ou não. Estas disposições têm um caráter penetrante, afetando amplamente todas as ações e pensamentos no decorrer da nossa vida.

Consideremos o exemplo da feminilidade.

Existirá algum problema ao socializarmos as mulheres da nossa sociedade em torno do estereótipo feminino? Existe algum problema ao socializar as raparigas de acordo com as normas de feminilidade, afirmando essas normas como únicas na definição do que é ser mulher? Se a visão da mulher como mãe e esposa não tem nada de intrinsecamente errado, então qual é o problema de socializar as raparigas de acordo com a mesma? 

Imaginemos que uma mulher se sente verdadeiramente feliz tendo unicamente como sua tarefa a de ser mãe e esposa; que uma mulher gosta de se depilar, maquilhar ou manter o cabelo comprido para se sentir bem; que uma mulher prefere usar vestidos a calças. Para esta reflexão, pensemos apenas nestas mulheres, felizes na concordância com o seu papel social. 

Se estas mulheres estão felizes com a sua vida, então que problema poderia existir? 

Só porque uma mulher se sente verdadeiramente feliz com as suas escolhas, não implica que para ela tenha existido uma vasta gama de possibilidades ou de caminhos a seguir.

Tomemos o seguinte exemplo: estou num quarto e uma pessoa de fora quer manter-me cá dentro. Ela pode trancar a porta, mas no momento em que eu a tentar abrir e perceber que estou trancada, entrarei num estado de transtorno, que ao fim e ao cabo, é danoso. Ao invés de trancar a porta, esta pessoa poderia incutir-me a crença de que aquele quarto é o melhor lugar do mundo para mim, que não existia razão para eu querer sair e, assim sendo, não consideraria sequer essa opção. Acreditando, não iria saber que a porta estava trancada, nem testaria a maçaneta. 

Neste caso, o dano existe na falta de possibilidade de mudança. Mesmo que eu não queira sair do quarto, fazer com que eu não considere sair, e ativamente levar-me a querer permanecer nele, causa dano. Não há nada de errado em querer permanecer no quarto, mas retirar a liberdade de sair a outra pessoa é essencialmente danoso. 

Poderia abdicar da minha liberdade de me movimentar e trancar a porta a sete chaves, ainda assim, se um dia o quarto inundasse e eu saísse imediatamente, ninguém me poderia culpabilizar. Se eu tenho a liberdade para decidir quando abdico dela e quando a recupero, então nunca abdiquei em primeiro lugar. Se eu não prescindo da minha própria liberdade, então ninguém pode escolher tirar-ma. Assim sendo, o problema não existe na escolha de ficar dentro ou fora do quarto, mas sim no apoderamento da liberdade de escolha de uma pessoa, por outrem. 

A verdade é que, em qualquer processo de socialização, estaremos a abrir certas portas e a manter outras fechadas. Haverá sempre mundos que não conheceremos e realidades que nunca serão nossas precisamente por termos aberto uma porta em vez de outra. O dano existe quando alguém faz estas escolhas por nós, ou nos priva de as poder fazer. 

Retomemos o exemplo da feminilidade. As normas sociais contemporâneas apresentam-se como uma lista de atributos, predefinindo o que faz ou não parte da feminilidade. Uma mulher só o será se tiver muitas curvas, se não tiver pêlos “indesejáveis”, se usar roupas assim e assado, se aceitar que a maternidade e a paternidade não têm o mesmo valor social, se demonstrar uma aptidão “natural” para a lida doméstica… a lista é interminável, contradiz-se muitas vezes, mas não importa, pois as mulheres deverão aspirar possuir todos esses atributos. Mas o problema é que não somos tudo, pois há elementos da lista que não são mutáveis face às características biológicas, e muitos outros elementos que exigem o impossível. O real problema, neste caso, não é existirem normas de feminilidade, mas sim, uma única lista, um único quarto. Existe apenas um pequeno espectro do que é aceite para ser uma mulher na nossa sociedade. 

Fomos ensinadas a esconder e a ter repulsa do nosso corpo e dos processos naturais que fazem de nós parte da espécie humana. Ser mulher não implica que todas temos curvas, pestanas escuras e compridas e a pele sempre reluzente e macia. Ser mulher é também ter pêlos, período, cheiros, muitos ou poucos desejos sexuais.

São normas enraizadas culturalmente que, por isto mesmo, se expõem como inabaláveis. Aparentam ser estáticas, rijas, inquestionáveis. São, afinal, o que dá sentido e direcção à nossa sociedade. Existem sanções sociais para quem não as segue, ostracizando assim quem não se identifica com as mesmas. As sanções sociais não são pagas em multas, mas no bem-estar emocional, físico e psicológico de cada indivíduo. Questionar o que é realmente ser mulher, é um mar difícil de navegar. Para ser mulher tenho de ser feminina. Se decidir rapar o cabelo, deixo de ser feminina? Se decidir que nunca mais me vou depilar, deixo de ser feminina? Ser mulher tem a ver com a forma como me apresento, mais do que aquilo que sou? Tem a ver com o que consigo fazer no domínio doméstico, mais do que com o que sou? É uma luta longa, que necessita de tempo, para fracassar, para erguer, para endurecer. Questionar os fundamentos pelos quais uma sociedade se rege, é como destruir as fundações sobre as quais construímos a nossa vida. É também um sinal de privilégio ter o tempo para poder questionar estas normas. 

É uma luta que dá indícios de ter começado. 

Mencionei o caso da feminilidade, mas poderia ter dado o exemplo da masculinidade, da heterossexualidade, da homossexualidade, da religião ou da etnia. É, talvez, a existência destes quartos a única forma de nos organizarmos em sociedade. No entanto, podemos criar mais quartos, com diferentes modos de vida, e ter mais atenção àqueles que andam à procura do seu.

Dizemos que os “gostos não se discutem”, mas se assim fosse não existiriam modas e “fora de modas”. Os gostos discutem-se e as normas sociais não são mais que gostos institucionalizados. Se os gostos se discutem, então as normas também.