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Não só álcool gel: a saúde mental também pede atenção

Os distúrbios mentais estão a crescer durante a pandemia da COVID-19 e, ainda, pouco se fala sobre a urgência de minimizar esses efeitos psicológicos na população.

Longe do vírus, mas vulnerável a outras patologias. Os efeitos colaterais de estar confinado, preocupado e sobrecarregado de notícias sobre a COVID-19 podem causar distúrbios psicológicos, como ansiedade, medo e stress. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que uma em cada cinco pessoas no mundo terá um distúrbio mental pós-quarentena. Duas vezes mais que em circunstâncias normais. Mesmo com essa estatística já sentida, em menor ou maior grau, por todos, as pautas de conversação, tanto do jornalismo e outros médias, quanto da população em geral, não giram em torno dos cuidados necessários para impedir ou minimizar esses efeitos.

Pouco se fala sobre a importância de preservar a saúde mental, e, na verdade, pouco sempre se falou. A fuga dos problemas psíquicos e a ausência de assumir o que não vai bem mentalmente faz com que se negligencie, e até se recuse, a necessidade de cuidados e de ajuda – a chamada psicofobia, herança enraizada nascida na discriminação com doentes mentais. Mesmo que seja ainda mais necessário em momentos de crise, os conteúdos criados em torno da COVID-19 não parecem abranger esta necessidade de cuidado. De tutoriais de como lavar corretamente as mãos à importância da escolha de material das máscaras, os media estão voltados quase que totalmente ao cuidado contra a contaminação do vírus, e, claro, é um tema imprescindível que não pode fugir de pauta, mas os transtornos mentais que a pandemia causa também merecem atenção.

O agravamento dos sintomas de sofrimento psíquico, quando não tratados, podem levar a ataques de pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, depressão e suicídio. Além da potencialidade de afetar todos os âmbitos da vida, também afeta a saúde física que está inteiramente ligada com a saúde mental – um facto não muito levado a sério por uma cultura movida pela medicina ocidental de remediar em vez de prevenir. Distúrbios mentais baixam a imunidade e podem fazer com que a população esteja mais sujeita a desenvolver doenças ou, quiçá, contrair mais facilmente vírus e bactérias – o stress crónico liberta hormónios, catecolaminas e glicocorticoides que podem afetar o funcionamento de células do sistema imunitário. Ainda, o medo que gera a ansiedade e o pânico também traz manifestações físicas, como taquicardia, falta de ar, tonturas e demais sintomas que podem se assemelhar com os da COVID-19 e outras doenças, o que faz com que algumas pessoas estejam a se deslocar aos hospitais, correndo um risco maior de contrair o vírus, crendo que já podem estar infectadas – mas não é o SARS-CoV-2, é uma crise de ansiedade.

Se a atenção à saúde mental em pandemias não acompanha a ameaça em tempo real – porque, realmente, o atraso para assumir a gravidade do vírus foi mesmo longo –, devíamos levar em consideração os episódios passados que já vivenciamos. O outro tipo de coronavírus que assombrou o mundo, entre 2002 e 2003, e provocou quase 800 mortes, perdurou as mazelas para mais além: quatro anos depois, 42% dos infectados que sobreviveram haviam desenvolvido algum transtorno mental, em maioria o stress pós-traumático, segundo um estudo da revista East Asian Arch Psychiatry. Os mesmos quadros psíquicos também se apresentaram para os profissionais de saúde que participaram dos esforços contra a doença, tendo efeitos ainda mais gritantes quando as estatísticas giram em torno dos óbitos, que podem gerar um sentimento de incapacidade de resposta por parte dos profissionais, e um impacto emocional para 6 a 10 pessoas a cada morte de coronavírus, conforme relatam especialistas.

O normal de uma crise global é senti-la, anormal seria manter-se apático diante disso, mas os efeitos desse sentir devem ser observados com cautela. Enquanto não há a divulgação da importância destes cuidados em uma escala maior que possa alcançar boa parte da população, é necessária uma consciencialização individual que desencadeie em comunicação entre as pessoas a fim de minimizar os impactos psíquicos da pandemia. Alternativas podem ser adotadas durante os dias de isolamento, como terapia em videoconferência, a prática de exercício físico – nem que seja na varanda ou na sala –, usar as redes sociais como aliadas para manter o contacto com amigos e família –  uma indicação da própria OMS –, atos de auto-cuidado, e, claro, pedir ajuda quando necessário – são dezenas de linhas de apoio psicológico durante a pandemia em Portugal. Temos um vírus para neutralizar, mas também temos outra pandemia do século XXI para vencer: segundo a OMS, atualmente os transtornos mentais afetam mais de 700 milhões de pessoas no mundo.