Crónica Opinião

Revolução em tempos de Pandemia

Muitos anos depois, deitado numa cama de hospital em Belém, o tenente-coronel Fernando Salgueiro Maia haveria de recordar aqueles dias remotos de Abril em que ainda era capitão. Haveria também de lamentar que um dia fosse este o autor das suas memórias, amaldiçoando-o entredentes por confundir as obras de Garcia Márquez.

Recordaria a agitação dos meses anteriores àqueles dois fatídicos dias. Como um vírus se espalhara pelo país, ameaçando o projeto dos Capitães que começara a tomar forma clandestinamente em Bissau, no ano de 1973. O projeto que, semanas mais tarde, fora batizado de Movimento das Forças Armadas. Mas, bem analisados os condicionalismos impostos à eterna dança entre causas e efeitos, talvez tivesse sido esse o ingrediente essencial para o sucesso de toda a operação. Convém não esquecer que o português, quando a inércia não o impede, é movido a desenrascanço.

Março chegara frio e com ele trouxera aquilo a que, primeiro, chamaram uma gripe. De espirro em espirro, por lenços de pano usados de dobra em dobra e guardados despreocupadamente no bolso, talvez até pelos ventos, a doença foi contagiando cada vez mais portugueses. “Orgulhosamente sós” ganhou, finalmente, algum sentido de Estado quando se fecharam escolas e todas as atividades do comércio considerado não essencial. Mantiveram-se abertos apenas serviços essenciais. As Igrejas, apesar de dois em cada três pastorinhos que viram aparições divinas terem sucumbido à pneumónica. Os estádios, nos quais o campeonato de futebol decorreria com normalidade. Entre Eusébio e a vida, a quanto fica o bilhete para a central? E, claro, os calabouços da PIDE/DGS, cuja infeliz sigla nada terá a ver com a Direção Geral de Saúde.

Em África, ainda não se falava do vírus, mas havia sangue. Os novos morriam pela pátria. A Camões serviu-lhe a honra de morrer com ela. O reconhecimento pela obra, que tarda mas sempre chega, eternizou-o a título póstumo. Mas aos que lá ficaram, em campa rasa não identificada, de pouco lhes terá servido o patriotismo que lhes foi vendido. Por cá, já circulava o documento do Movimento. O país é colocado a meio gás e a sua divulgação vê-se ameaçada. Mas, no dia 24 de março, todos de máscara e reunidos à distância de segurança, que se há algo que as forças militares têm de bom é a disciplina mesmo em situações caricatas, os capitães optam por manter os planos. A revolução acontecerá.

Quando Salgueiro Maia saiu de casa, ainda no dia 24 de Abril, de caixa de cigarrilhas no bolso e viseira protetora, um hábito recentemente adquirido, debaixo do braço, só conseguia pensar se Otelo se comportaria decentemente no Quartel da Pontinha. Já não bastava estar constipado, ainda tinha de insistir em andar sempre com a viseira levantada. Fingira rir-se quando Otelo sugeriu que ameaçaria espirrar para cima de Marcello Caetano se este não se rendesse. O homem, apesar de louco, era Major e nem o riso pode fugir à hierarquia. E que revolução teria sido essa sem os seus gritos de “Pá” pelo rádio?

Felizmente, não se tinham fechado por completo as rádios, senão teria de se ter pedido a Paulo de Carvalho que viesse à janela cantar, a plenos pulmões, “E Depois do Adeus”. Faltavam cinco minutos para as vinte e três horas quando a canção derrotada por Waterloo na Eurovisão, codificada em ondas de rádio, dá início à Operação Fim do Regime. Quantos golpes de estado já foram iniciados ao som de ABBA? Tudo se precipitou quando Zeca Afonso ecoou pelos altifalantes, vindo do estúdio da Renascença. A contra-senha estava aí.

Ao princípio da madrugada, em frente a oitenta homens da Escola Prática de Cavalaria, o capitão propõe, entre pausas para que o vapor da expiração que se condensava na viseira voltasse ao seu estado gasoso, que se acabe com o “estado a que chegámos”. Nos documentários talvez se venha a omitir este detalhe, todos os realizadores, mesmo os que juram fidelidade ao real, gostam de acrescentar um ponto ou outro a um bom discurso.

Por razões de segurança, apenas aqueles oitenta dos oitocentos lá presentes se puderam juntar. Os homens tinham de ser bem distribuídos pelas chaimites, nem o fim de uma ditadura deve ter o direito de colocar desnecessariamente vidas em risco. Alguns ainda tinham o pijama por baixo da farda que, nunca se sabe, o golpe poderia ser rápido e os prevenidos valem por dois.  Às três e meia, os blindados partem rumo à capital e ao Terreiro do Paço, que naquele dia 25 se chamava Toledo. De Espanha, nem bom vento nem bom casamento, o nome parecia apropriado.

Pelo caminho, Salgueiro Maia vai revendo o plano. A Rádio e Televisão de Portugal já deve ter sido tomada. Haverá, em breve, de se pôr um travão à censura. Está o capitão longe de imaginar que, no futuro, os inimigos da liberdade já não se servirão do lápis azul para a atacar. A desinformação em larga escala, com constantes mentiras repetidas, recicladas e pintadas com novos tons de ódio serão, quase meio século após essa viagem até Lisboa, ferramenta maior de controlo de massas. A figura de salvador da pátria evoluirá para o populista salvador de costumes há muito ultrapassados.

A cidade está deserta, são cinco horas da madrugada. Tem estado assim, no entanto, durante os restantes dias. Exceção feita aos dias de missa e aos dias de jogo, bem se sabe. A coluna chega ao Campo Grande e para nos semáforos do cruzamento da Cidade Universitária. Irritado com o ridículo da situação, mas feliz por as aulas de Código da Estrada não serem totalmente em vão, ordena que a revolução não pare nos semáforos até ser atingido o objetivo final.

Ocupado o Terreiro do Paço, o Tigre, que só podia ser Otelo, é informado por Charlie Oito do sucesso, até ao momento, da operação. Sabe-se depois que Marcello Caetano se encontraria, afinal, refugiado no Quartel do Carmo. Alguns homens perguntam se não seria hora de uma pausa para o pequeno-almoço. Sarcástico, Salgueiro Maia afirma que, se forem rápidos, ainda vão a tempo de partilhar os cereais com o Presidente do Conselho de Ministros. Lá chegados, notam-se os efeitos devastadores das medidas de combate à pandemia.

Apenas um Land Rover, ainda hoje fiéis à Guarda Nacional Republicana, os espera. A última linha de defesa do Estado Novo tinha lama no para-choques. Tinham trazido um megafone para comunicar durante o cerco, mas parece que não seria necessário. Uma breve conversa com os militares da GNR bastou para os demover da sua missão. Oitenta ainda é maior do que dois e, todos os que chegassem em breve, teriam dificuldade em ajudar os guardas. Salgueiro Maia entra no Quartel.

As negociações, como se deve imaginar, não foram difíceis. Marcello tinha três exigências: render-se apenas a um oficial de alta patente, o exílio no Brasil, que como é sabido é imune a todos os vírus devido ao passado atlético dos seus líderes, mas também que lhe trouxessem um fato, parecia indigno render-se de pijama. Acordou-se Spínola e foi-se pedindo porta a porta, de empréstimo, um fato, até alguém ter conseguido oferecer um do tamanho certo. O seu dono nada pediu em troca, alfaiates em Lisboa havia demasiados, dias de liberdade é que não se viam. Esqueceram-se de desinfetar a camisa, os ares do Brasil com certeza que tratariam do descuido.

E assim se passou. Caetano foi escoltado com os outros ministros, já dignamente vestido, tendo direito ao seu exílio em terras de Vera Cruz. Ao povo pediu-se que adiasse as celebrações. Tarefa difícil, bem se sabe, mas as varandas e as janelas iam tomando as vezes das ruas. Colunas militares, devidamente espaçadas, desfilavam por algumas das artérias da cidade. Atiravam-se flores de papel, que os militares colocavam nas espingardas. Para agrado dos esfomeados do Terreiro do Paço, eram atiradas algumas merendas embrulhadas em sacos de pão. Só lamentavam que de pouco lhes servisse o pijama que se escondia sob os trajes militares.

Num universo paralelo, dos muitos que dizem existir, talvez tenha sido esta a verdade. Na que marcou a nossa linha temporal, Salgueiro Maia percorreu um caminho mais sinuoso, quando, por exemplo, enfrentou sozinho o M47 com o colérico Junqueira Reis a ordenar, sem sucesso, que se abrisse fogo sobre ele. O capitão contava vinte e nove anos nesse dia. Recusou privilégios e honrarias: os convites para ser membro do Conselho da Revolução, adido militar numa embaixada à sua escolha, governador civil de Santarém ou para pertencer à Casa Militar da Presidência da República.

Em vida, seria apenas agraciado com a Ordem da Liberdade, em 1983. O tenente-coronel Salgueiro Maia quis ser sepultado em campa rasa, em Castelo de Vide, ao som de “Grândola, Vila Morena”, a eterna contra-senha. Foi, até ao fim, fiel à palavra dada aos seus ideais. E, na memória coletiva, persistirá como prova que há alturas em que é preciso desobedecer.