Artigo de Opinião Opinião

E depois da COVID-19?

Sei que é desanimador, mas nem tudo vai ficar bem depois da COVID-19. Segundo vários entendedores do assunto, depois desta situação toda da quarentena, vamos passar pela pior crise dos últimos 100 anos. Sim, pior que a de 2008. E todos sabemos como é que essa correu, certo?

Admito que os motivos que me levam a preocupar-me com esta situação são completamente egoístas. Em 2008, eu era uma criança, pouca consciência tinha do que estava a acontecer. O meu pai estava em casa em vez de estar a trabalhar, é verdade, mas isso não era mau. Ele ia buscar-me à escola e eu não tinha de ir para a casa dos meus avós. Passávamos imenso tempo juntos. Para mim, essa era toda a informação que precisava de saber.

Agora as coisas são diferentes. Sou maior de idade e tenho sonhos e ambições que tenciono cumprir. Contudo, tudo se torna mais complicado quando temos um orçamento apertado. Aqueles que dizem que o dinheiro não pode comprar a felicidade estão completamente enganados.

E sim, eu sei que “quem tem saúde tem tudo”. Mas, por outro lado, conhecem aquela fotografia tirada na cidade de Chicago, em 1948, da mãe a vender os quatro filhos? Eles eram saudáveis, dentro do possível. Só não tinham o que comer.

Chicago, 1948
Chicago, 1948

Reconheço que posso estar a pintar um cenário demasiado negro. A fotografia foi tirada há 72 anos, quando não existia segurança social e era “cada um por si”. Hoje em dia, uma mãe que fizesse isso perdia imediatamente a tutela dos filhos e iria presa. Para além disso, há mais informação e (quase) toda a gente tem acesso a uma educação razoável e à oportunidade de se formar.

Porém, é a primeira vez que algo deste género nos acontece. Sim, vemos epidemias e crises económicas nos livros de História, na literatura e no cinema, mas não temos a dádiva que é a experiência pessoal. Tudo o que temos à nossa frente é uma tela branca, que representa o nosso futuro, e não um arco-íris com palavras reconfortantes em baixo.

Peço desculpa pelo meu pessimismo, mas neste momento não tenho paciência nem para os discursos incentivadores do Rodrigo Guedes de Carvalho. Compreendo que toda a gente tem boas intenções quando diz que “estamos todos no mesmo barco”, mas a verdade é que não estamos. Vamos lá ser realistas: é muito mais fácil estar de quarentena numa mansão com piscina do que num apartamento T2. É muito mais fácil relativizar toda esta situação quando se tem a possibilidade de estar em casa, em teletrabalho, do que quando se trabalha na linha da frente, arriscando a vida todos os dias para o bem comum. É muito mais fácil rir e cantar quando a vizinhança vai toda à janela, à noite, do que quando se está em isolamento sozinho, sem as pessoas mais próximas ao lado. E, acima e tudo, é muito mais fácil dizer que “vai tudo correr bem” quando não se vê contas a acumular, sem ter capacidade de as pagar.

É verdade que o “bicho”, como o Bruno Nogueira lhe chama, pode contagiar qualquer pessoa, mas o impacto que causa em cada um de nós é muito diferente.

Não vamos comparar o sofrimento e a apreensão de um comerciante por conta própria, que vê os seus produtos a acumularem-se nas prateleiras, sem saber o que fazer com eles, com o de alguns jogadores de futebol milionários, que se queixam de receber uns milhões de euros a menos no salário.

Tudo o que peço, portanto, é um pouco de consciência. Não vale a pena pormo-nos a pintar cenários cor de rosa que não vão acontecer. A única coisa que podemos fazer é ver o que acontece e esperar que, o que quer que aconteça, seja suportável.