Crónica Opinião

Juventude Sónica

“Quando a nossa cara se gastar e tivermos medo de arriscar” cantam os Linda Martini, numa faixa que nos lembra que os Sonic Youth serão sempre eternos. Hoje servem-me apenas de introdução, um castigo bem aplicado por terem ajudado a despertar em mim esta crise de meia-idade, auxiliados em boa parte pelo melancólico distanciamento social. Maldito mundo novo em que somos velhos aos vinte. Maldito mundo novo em que só temos as memórias.

Lembram-se? Lembram-se de quando iam mudar o mundo? Daquele tempo em que os sonhos eram mais reais do que a vida nos parece agora. Vivíamos agarrados às promessas de grandeza que fazíamos aos poucos que nos ouviam e aos muitos que duvidavam. No fundo, a nós próprios. Porque nunca quisemos que ficassem só por aí. Pelas palavras.

Na altura parecia tudo tão fácil. Éramos pequenos e ainda víamos o mundo como ele é. Grande. E corríamos. Para trás e para a frente. Não por pressa. Não por sabermos que a corrida contra o tempo está perdida à partida. Simplesmente porque era a nossa natureza. Sentir o ar gelado, acelerado, a cortar ao de leve a nossa pele. Sentir os passos, na altura desengonçados, pesados, a embater a trote no chão empedrado. Aquele que nos rasgava as calças, que nos marcou os joelhos até hoje. A lágrima da ocasional queda era rapidamente substituída pelo ardor, quase sempre psicológico, do toque do algodão. Pelo sorriso desdentado dos amigos que nos viam chegar daquelas viagens que todos haveríamos de repetir vezes sem conta.

E depois mudamos. Crescemos. Acabamos por entender a expressão de desinteresse com que nos presenteavam quando narrávamos as nossas aventuras de infância. Os dentes já não teimavam em cair, estavam agora temporariamente enclausurados por arames. Os intervalos já não eram de corrida desenfreada. Eram de encontros nos corredores. Substituímos interesses. Fechados no quarto, começamos a tentar perceber quem queríamos ser. Que música ouvir. Que livros ler. O que vestir. Copiamos estilos, mudamos roupas, cortes de cabelo, até amigos. Travamos batalhas incessantes, de creme na mão e olhos cravados no espelho, contra o acne que teimava em reaparecer. E, pelo caminho, fomos largando sonhos e colecionando realidades.

Mais do que o medo de falhar, assombra-nos a vergonha de o fazer. Do esforço que dedicamos para, no fim, todos se rirem de nós. Valerá a pena cair no ridículo? Aos vinte anos ainda não temos medo de arriscar. Temos medo de perder tempo. Temos medo de não agradar. Por um lado, o receio palpitante de dedicarmos a vida a uma receita estudada mas que não nos preenche, tudo em nome da estabilidade. Por outro, a incerteza de sermos suficientemente bons para termos a oportunidade de fazer apenas aquilo que gostamos.

Perdido nas minhas crises existenciais intermitentes, surgiu-me The New Abnormal. Como bom fã dos Strokes interrompi tudo e avancei para o álbum, aguardando a salvação, mas temendo sempre o pior. Nunca queremos que seja demasiado tarde para a nossa banda preferida. Não esperava um recomeço, mas foi o que me deram. Maturidade ao fim de demasiados anos agarrados a uma juventude que já não lhes pertencia. Os Strokes já não querem salvar o rock. Já não querem ser História. Ode to the Mets fecha o álbum com a certeza de que os Strokes já não cantam para nos conquistar. Cantam por eles. E isso basta-me.

Às vezes acontece. Sem sabermos bem como, voltamos a correr. E vamos voltar a cair. Vamos ser olhados de lado pelos que já não acreditam. Ostracizados. Ridicularizados. Mas teremos sempre aqueles sorrisos, agora completos, à nossa espera quando nos levantarmos. E, guardada na memória, a promessa que nunca desistiríamos. Nunca. Porque eles podem não se lembrar, mas nós nunca nos esquecemos.