Crónica Opinião

Portugal é mais do que Lisboa, o resto é paisagem

Um país pequeno, desagregado por conceitos destituídos de sentido. Afinal, até onde vai o bairrismo enfermo?

Para acordar os neurónios em quarentena proponho um desafio.

Pergunto, então, o que têm em comum estas personalidades: Miguel Torga, Júlio Dinis, Valter Hugo Mãe, António Tabucchi, António Nobre, Ramalho Ortigão, Almeida Garret, Agustina Bessa-Luís, Rui Veloso, Sophia de Mello Breyner, José Mário Branco, Miguel Araújo, Eugénio de Andrade, Camilo Castelo Branco.

Antes de qualquer outro ponto, o que liga imediatamente os nomes citados é o facto terem como berço o Norte do nosso Portugal.

Noutra fase, dir-se-á que também se aproximam no intelecto, na elevada criatividade, na vertente técnico-artística exacerbada, na sensibilidade aguçada.

Remato com a perigosa conclusão de que os nortenhos não revelam particular falta de instrução. Questão número um refutada. Rui Moreira um, TVI menos do que isso.

É certo que não serão meia dúzia de nomes influentes, com raízes maioritariamente portuenses, que provarão que em cima o tiroliroliro é tao instruído quanto o tiroliroló. Contudo, a Direção Geral de Estatísticas de Ciência e Educação revela manifesta concordância com o apresentado.

Aliás, segundo os dados recolhidos pelo Instituto Nacional de Estatísticas em 2018, o número de espectadores de espetáculos ao vivo por habitante foi superior no Norte, comparativamente a qualquer outra região do país.

Comprovou-se, de igual modo, que o número de museus; jardins zoológicos, jardins botânicos, aquários; galerias de arte e outros espaços de exposições temporárias estavam concentrados em maior número na zona Norte comparativamente às restantes unidades territoriais.

Embora, na verdade, a área metropolitana de Lisboa tenha apresentado: um número superior de visitantes por museu; uma maior taxa de sessões e espectadores a assistirem a performances ao vivo.

Ainda assim, à luz das despesas das câmaras municipais em atividades culturais e recreativas, o Instituto Nacional de Estatísticas realçou o Norte como unidade territorial mais diligente neste sentido.

Trocando tudo isto por miúdos, ou por miolos, (mais críticos na análise) a unidade territorial Norte não se encontra numa posição inferior em relação ao acesso e contacto com cultura, arte, recreio e lazer.

Dado isto, Rui Moreia foi contundente ao expressar a sua insatisfação com a venenosa (des)informação que passou no canal TVI.

Em sede noticiosa, justificou-se o superior contágio da COVID-19 no Norte, em razão de uma maior taxa de pobreza e educação relativa às pessoas desta região. Foi acrescentado ainda, que esta zona contém mais gente envelhecida, logo, mais concentrada em lares.

Efetivamente, segundo os dados recolhidos pelo Instituto Nacional de Estatísticas em 2018 e, equacionando apenas Porto e Lisboa, o Índice de envelhecimento por local de residência na primeira foi de 219,8 enquanto na segunda foi de 137,5. Haja, no entanto, tento nas generalizações falaciosas e induções trapaceiras que não têm lugar no jornalismo de excelência, ou no jornalismo enquanto o que é, porque se assim não foi terá outra denominação. Contra-informação, por exemplo. Bolas, estou certa desse nome me ser familiar e não sou adepta do nepotismo. Arranjarei outro.

O desabafo do Presidente da Câmara do Porto revela que o seu segundo mandato é ainda cunhado pela ardência de representar, mais do que uma cidade, uma nação. Antes de político, é portuense.

É um dado de facto que os da inbicta são amigáveis e hospitaleiros com qualquer visitante a não ser que, e isto é regra d’ouro, estes denigram ou ofendam a cidade de alguma maneira. Aí, vale tudo, até assobiar em jeito de chamamento para que o dragão sobrevoe os céus e dejete em cima dos visados. O Porto é remendo com gente de língua afiada, que se preza por ser capaz de se defender a si e aos mais que venham a precisar. Ninguém se cala perante uma tentativa de submissão, porque a única coisa maior do que o ego destas pessoas é o amor pela sua terra.

Os portuenses formaram caráter na altura do cerco de 1820 e, desde então, sentem-se um povo à parte, “cercado” pelo seu próprio mundo e costumes que só resistem face à determinação do sotaque prenho de volume e de vogais abertas.

O Porto é uma cidade onde a magia está em todos os cantos, principalmente nos menos retocados. E aquilo que o tempo menos moldou, foi a sua gente!

Face tudo isto, considero que o nosso Presidente foi a voz da indignação coletiva. Mas mais do que Norte, somos Portugal, tal como a TVI prega aos domingos.

Sou capaz de me entusiasmar e gritar da janela “Rui, será que quando isto acabar seremos uma unida ocidental praia Lusitana?”, imagino-o a beber uma jola e a querer brindar. Super Bock, claro está.