Artigo de Opinião Opinião

Desigualdade COVIDente

Em tempos de crise vê-se mais do que se quer ver, tornam-se evidentes as falhas de um Estado, as falhas de uma sociedade e a desigualdade que se verifica sobre nós.

Pode ser algo que passa mais ou menos despercebido aos olhos de cada um, na dita normalidade do decorrer do quotidiano, conforme a atenção que decidimos dedicar a este tipo de questões. No entanto, com a crise epidemiológica que vivemos de momento, tornam-se claros os maiores pontos de distinção entre as diferentes classes e estatutos sociais.

Não é preciso pensar muito no assunto para reparar, por exemplo, no enorme desnível entre passar 24 horas fechado num apartamento de 64m2, em que o único contacto com ar puro é uma janela onde bate o sol 45 minutos por dia, e uma mansão de 3 andares, biblioteca, jardim com piscina e ginásio privativo. Ou, por outro lado, na distinção de facilidade no acesso a inúmeras e variadas formas de entretenimento.

Mediante estas circunstâncias, torna-se claro que o que para muitos é visto como uma oportunidade para enriquecer culturalmente e ainda tirar um tempo para descansar e relaxar um pouco, para outros nada mais é que uma bolha minúscula de stress concentrado onde não há espaço para se ser. Não falaremos, ainda, nas possíveis repercussões a enfrentar atual e futuramente no fórum psicológico e/ou psiquiátrico.

Apesar de significativas, estas nem são evidências muito determinantes na distinção económico-social que verificámos neste momento. A Educação, como principal meio de promoção de igualdade de oportunidades e de mobilidade social, não pode apresentar agora mais lacunas do que as que já se manifestam normalmente, e isto, de certo, não se tem verificado. A pandemia que nos veio obrigar a mudar de hábitos, quase que na sua totalidade, obrigou-nos também, como sociedade, a reduzir todo e qualquer contacto social a grande escala, e isto, claro está, inclui os meios de ensino presencial.

Perante esta adversidade, diversas instituições de ensino superior, nas quais se incluem as faculdades da Universidade do Porto, deram início ao chamado “Ensino à Distância”, com o objetivo de dar continuidade aos seus programas curriculares e de minimizar ao máximo os constrangimentos na formação dos seus estudantes. Como grande exemplo também, tem sido alvo de preocupação de algumas destas instituições assegurar que os alunos menos favorecidos, que se encontram de momento em situação de maior carência económica, não se vejam limitados a nível formativo, quer pela atribuição de bolsas de emergência, quer pelo empréstimo de computadores e/ou outros dispositivos informáticos. Será suficiente? Métodos de avaliação à distância começam a ser discutidos e mesmo aplicados em algumas escolas, métodos estes que podem vir a colocar em posições menos favoráveis alguns dos estudantes portugueses. A sobrecarga de trabalhos, tarefas e testes mostra-se objeto de alarme para estudantes que se vêm obrigados a partilhar o equipamento tecnológico com a família e que não têm acesso a uma rede suficientemente estável que permita assistir sem problemas ao material digital. Minimizados os constrangimentos, as desigualdades ainda existem, independentemente da ação institucional.

Por outro lado, no ensino público obrigatório, encontramos uma realidade um tanto diferente: o ensino foi pausado durante umas semanas, o tempo de resposta foi mais demorado, e agora as aulas começam a ser lecionadas online,  com o regresso até da telescola, emitida pela RTP Memória. As aulas presenciais foram canceladas até ao fim do 3º período, à exceção das disciplinas sujeitas a exame nacional , essas sim ainda com a possibilidade de ser retomadas.  As divergências entre os estudantes verificam-se, arrisco-me inferir, com maior intensidade ainda que no ensino superior, sendo, portanto, um caso de maior alarmismo a considerar. Algumas autarquias já se encontram a atuar face às dificuldades sentidas, com a distribuição de equipamentos eletrónicos, mas há claramente um fator a ser ignorado. O rendimento de aulas nestes moldes é notoriamente inferior, alunos com maiores dificuldades de aprendizagem não conseguem tanta atenção para que interiorizem conteúdos programáticos sem a presença de um professor. O que é feito dos alunos que não têm como ter acesso a qualquer tipo de apoio em casa? O que é feito dos alunos que não têm oportunidade de conviver com pessoas com instrução suficiente para os ajudar nas tarefas escolares? É-lhes negligenciado o ensino? Não podemos compactuar com a continuidade de métodos que evidenciem a desigualdade social entre as nossas camadas mais jovens numa área tão determinante e prioritária como a educação.

Não vivemos numa utopia, é certo, mas na impossibilidade de assegurar igual acesso educativo a todos os alunos até ao 12º ano, há que ponderar alargar prazos de forma a garantir que todos têm igual oportunidade de adquirir o mesmo nível de conhecimentos, em equidade de oportunidades.