Crónica Opinião

Crónica de uma fuga à quarentena

escrita é, ao lado da fotografia, a atividade que mais me apraz nesta vida atravessada pelo constante exercício de materializar com palavras qualquer ideia ou pensamento, de trivialidades a siderantes divagações filosóficas. Tal verve terá surgido, que me lembre, ali pelos dezoito anos, justamente na esteira da minha (para já) única travessia do Atlântico. Culpa de um surrado fanzine carioca, de nome Bodegachegado a mim em sua edição de número 7 sabe-se lá como, composto por singelos e divertidos textos de Leonardo Panço, seu criador e figura conhecida do underground brasileiro, e diversos colaboradores. Nunca fui o maior dos fanzineiros, mas ao longo da década passada colecionei uma quantidade significativa dessas publicações especialmente oriundas da subcultura punk brasileira, portuguesa e espanhola. Todavia, o Bodega sempre me foi um caso à parte. O meu favorito, de longe. Talvez por ter sido o primeiro fanzine que eu li na vida – ainda antes de saber o que era um fanzine –, mas seguramente por apresentar crónicas hilariantes a partir de banalidades quotidianas, embora também tivesse textos problemáticos e socialmente inconscientes que talvez hoje não fossem aceites pela publicação ou mesmo escritos por quem há vinte anos os escreveu.

Meus primeiros esboços literários foram imitações descaradas do que eu lera no Bodega, ainda que essas imitações, não conseguindo reproduzir aquele delicioso gracejo tosco, pendessem muito mais para o patético. Hoje, ao revisitá-los, sou submetido a uma experiência agridoce de constrangimento e um riso complacente. Eram, afinal, os meus primeiros passos; estágio fundamental em qualquer atividade. Desde então, nunca parei de escrever. Após superar o impacto deslumbrante do Bodega, enveredei na seara político-filosófica. Kant, Bakunin e os sofistas gregos foram temas dos meus primeiros escritos, digamos, sérios. Pretensiosos, aliás, e com o substrato juvenil da arrogância. Até fiz o meu próprio fanzine, o Retórica. Incentivado por um professor de filosofia da escola artística Soares dos Reis, no Porto, passei muito tempo esboçando uma roupagem anarquista da moral kantiana e foi aí que, pela prática, cheguei a resultados mais satisfatórios que as imitações ao humor do Bodega.

Amanhã a minha quarentena completa um mês. Uma quarentena praticamente absoluta, violada apenas quando, a meio dela, atordoado pela hipocondria, saí para uma breve volta ao quarteirão e regressei pior que Marvin, o androide paranoide. Pensei, no início, que aproveitaria esta excepcionalidade para pôr mãos não à obra, mas às teclas, e escrever tudo o que não havia sido escrito pela falta de tempo e de frescor. Apesar de em nenhum momento romantizar a quarentena e de desejar profundamente que ela acabe, durante a primeira semana ainda dei asas ao meu lado otimista: “sairei desta pandemia cheio de projetos retomados ou iniciados, e todos finalizados”.

Ledo engano. Toda a parte introdutória deste texto serve para sustentar a constatação de que há algo muito errado quando não consigo escrever. Mesmo estando no único ambiente capaz de me maximizar a capacidade criativa, que é o meu quarto cuidadosamente ambientado para tal (com luzes quentes, decoração inspiradora e uma certa desarrumação planeada), escrever tem sido tarefa árdua, impossibilitada pela palpitante ansiedade amalgamada de hipocondria e temor face às incertezas de um qualquer futuro que venha a sair do outro lado deste sombrio túnel que lentamente atravessamos.

já que toda esta tensão é como uma rolha que impede o vinho de irromper pelo gargalo da garrafa – oportuna metáfora: de facto, o único álcool desta quarentena tem sido o que desinfeta as minhas mãos –, a solução é render-me à criação alheia. E assim encontrei uma forma de sair da quarentena e do próprio ano de 2020 para refugiar-me em outras dimensões e camadas de tempo. Nada místico, é claro. Apenas metaforicamente.

Tudo começou com o filme alemão O Jovem Karl Marx, que me levou a revisitar os primórdios de um embate persistente e encarniçado que até hoje mantém dividida boa parte da esquerda socialista. Em 1846, o socialista francês Pierre-Joseph Proudhon, pioneiro teórico do anarquismo e já uma celebridade intelectual na França, publicou um livro chamado Sistema das Contradições Económicas, ou A Filosofia da Miséria. Antes, havia publicado o impactante O que é a Propriedade?. O grande momento do filme, para mim, é quando aparecem juntos em Paris a debater ideias amigavelmente nada menos que Marx, Engels, Proudhon e Bakunin. Um quarteto de peso postulante à titularidade no 3-3-4 de qualquer equipa ultraofensiva do mundo – embora Marx não tenha conseguido evitar a derrota germânica para a Grécia no duelo ludopédico de Monty Python, decidido nos derradeiros minutos por Sócrates com assistência de Arquimedes. O problema é que no desenrolar dos factos, que o filme não destaca de maneira mais detalhada, Marx escreveria o impiedoso A Miséria da Filosofia, publicando em 1847 como resposta a Proudhon, selando de vez o rompimento entre ambos e, com isso, a aparentemente irreversível rivalidade entre anarquistas e marxistas, corolário de um antagonismo conceptual opondo socialistas utópicos e socialistas científicos.

Mas esses livros não foram o único embate. Será mais correto encará-los como a plataforma sobre a qual a batalha se desenrolou com crescente ferocidade. Se por um lado talvez Marx tenha levado a melhor sobre Proudhon em termos de fundamentação teórica, por outro Bakunin revidou à altura com suas análises “proféticas” sobre a ditadura do proletariado. Ainda que eu penda para o lado libertário, a minha visita ao embate teórico procurava sobretudo os pontos convergentes. Por isso a cena em que os quatro teóricos socialistas estão juntos é a minha favorita, mesmo que para manter a ambiente pacífico eu tenha prometido engolir a lembrança da carta que Marx escreveria quase vinte anos depois ao jornal alemão Social-Democrat a respeito da morte de Proudhon, matando-o ainda mais. E foi assim que me pus burlescamente no meio deles, qual penetra em festa, participando daquela atmosfera dialética a exalar pólvora revolucionária.

Proudhon achou por bem alertar-me para o facto de eu estar visitando uma época em que o roubo travestido em propriedade ainda era normalizado como um direito natural, talvez esperançoso quanto ao momento histórico de onde eu saíra, e falou algo sobre cooperativa de crédito que me soou deveras familiar, talvez tristemente familiar; Bakunin reiterou-me seu desprezo pelo Estado, por deuses e por mestres, incluindo mestres anarquistas, e explicou-me que apenas desconhecedores da natureza humana poderiam acreditar que operários elevados a uma cúpula burocrática não se tornariam mais tirânicos que o próprio Czar; Marx reafirmou-me o seu materialismo descolando-se do idealismo hegeliano, e confessou esperar dos filósofos de onde quer que eu tivesse saído que atuassem na transformação do mundo a partir das relações de produção, porque até então eles só se tinham preocupado em interpretá-lo; Engels, por sua vez, denunciou-me as condições de trabalho dos operários e eu respirei todo o ar daquela sala antes de desaparecer numa nuvenzinha de ilógica, como não diria Douglas Adams.

Fui parar em 2011 à casa de Matt Damon em Mineápolis. Ele tentava proteger a filha de uma pandemia desencadeada algures na Ásia por um vírus de morcegos adaptado a humanos. Definitivamente, eu não queria estar ali. Nem mesmo para ajudar, porque os EUA invariavelmente salvariam a humanidade. Mas no regresso ao presente refiz-me do lapso e percebi que não podia fugir de uma ficção hollywoodesca que pautava a minha própria realidade. Decerto conseguem imaginar-me a desligar o computador para sair de uma catástrofe humanitária global e perceber que afinal estou dentro dela. Regressei a Paris e deixei-me passivo apenas ouvir o quarteto, sem descortinar-lhes o futuro, talvez por medo de os desanimar com a realidade dos séculos XX e XXI, cuja complexidade poderia ofuscar-lhes o correto entendimento de que o contributo dos seus esforços será fundamentalmente positivoNo entanto, perguntado sobre se o mundo era melhor no meu tempo, nada respondi além de um esboço de sensações segundo as quais no instante em que eu me ausentara, por circunstâncias muito específicas e outras temporalmente permanentes mas não inalteráveisera-me mais aprazível estar ali com eles no século XIX. Deu-me vontade de dizer a Proudhon que os anarquistas do século XXI alimentam o culto ao sectarismo e vivem fechados em seus próprios círculos intelectualmente masturbatórios, tão longe da realidade quanto eu próprio naquele instante. Mas não podia dar um trunfo de bandeja a Marx. Então eu disse que ciência e luta de classes eram para mim o vislumbre da redenção humana, e os quatro novamente viram-me dar lugar a uma nuvenzinha.

Acordei então no terceiro andar de uma prisão vertical espanhola, com um buraco no meio das celas por onde descia um banquete numa plataforma. Meu colega de cela asseverou que tivéramos sorte, embora dentro de um mês, quando fôssemos rebaixados, talvez ele tivesse de me comer para não morrer de inanição. Desdenhei a ameaça e disse-lhe que estar aprisionado não era uma condição muito diferente daquela à qual eu havia fugido, e que alguma emoção até me cairia bem. Quando exalou cheiro a gás, porém, solidarizei-me espontaneamente comigo próprio e pirei-me na nuvenzinha, rematerializando-me no século XIII, na Mongólia, prostrado em frente ao trono de Kublai Khan ordenando-me que lhe descrevesse o seu vasto império. Atordoado com tantas viagens no tempo, escusei-me de cerimónias e disse-lhe que no meu tempo o seu império não era mais do que uma história condenada ao esquecimento. O Grande Khan espantou-se com a minha ousadia e elevou o tom, comparando-me a um qualquer mercador veneziano que, segundo ele, só avançava com a cabeça voltada para trás, vendo somente o que estava às suas costas. E então perguntou-me se a minha viagem só se dava no passado.

Respondi-lhe:

O viajante reencontra no passado algo que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.

Uma nova nuvenzinha me tirou dali antes que o Grande Khan me condenasse a ser esmagado por cem cavalos, e acabei em uma espaço-nave vogon ao lado de um inglês esquisito empacotado por um roupão. O problema foi eu me ter apercebido tarde demais que estava numa qualquer aventura da mais bizarra e psicadelicamente criativa ficção científica jamais escrita nestes confins inexplorados da região mais brega da borda ocidental da Via Láctea. Por uma espécie de cúmulo da correlação, da similitude, da semelhança, que também pode ser interpretado como banalização do absurdo, julguei estar no Brasil bolsonarista. Do Panic! De imediato regressei ao meu cubículo orwelliano para escrever secretamente não ao futuro imprevisível, mas ao seguro – ainda que imperfeito – pretéritoAs redes sociais concedem-me sessões transbordantes de dois minutos de ódio face à novilíngua revisionista da guerra cultural. Fervilho em falso repouso após tantas viagens, convencido de que, ao contrário de mim, Douglas Adams, falecido em 2001, viajou para a frente e cá esteve, em 2020, antes de regressar aos anos 70 e iniciar a sua trilogia de cincoNunca, desde que me conheço por gente, o mundo foi tão stranger than fiction.