Crónica Opinião

Uma pequena ideia de liberdade

O ano de 2020 apresentou ao mundo a nova Popstar sensação do momento. Não sai da televisão, constantemente a aparecer nas notícias, assim que começa o telejornal, a primeira notícia é sempre a mesma. Não é difícil adivinhar a que me refiro. É sem dúvida uma situação preocupante, e ainda bem que vários países estão a tomar precauções.

O aviso e a lembrança para as pessoas se manterem dentro de casa, longe de multidões, é constante. É uma atitude necessária, se é que queremos que tudo acabe o mais depressa possível. Consequentemente é levantada uma questão interessante. Então e a liberdade? Para onde é que ela foi? Se eu quiser sair à rua já não posso, só porque alguém superior assim o diz? Vá-se lá saber de onde veio tal superioridade.

Na verdade, pensar que a liberdade desapareceu apenas agora é uma ideia um pouco errada. Seria preciso tê-la em primeiro lugar. Quando é que o ser humano teve liberdade, afinal? Talvez há muito tempo atrás, algures numa caverna onde o fogo era a atração principal. Desde então quando é que houve liberdade? Ela nunca existiu. Todos os dias somos regidos por uma data de regras, impedidos de fazer, realmente, aquilo que bem nos apetecer. Se eu quiser plantar árvores de fruto, para me alimentar, num pedaço de terra que encontrei, que não me pertence a mim, não pertence a ninguém para além da natureza, e a minha ação, nesse espaço, está confirmada de não causar transtornos a qualquer alma, posso, simplesmente, fazê-lo? Não. Se for proprietário de um terreno e decidir juntar uns pedaços de madeira a mais uns pregos para construir uma cabana onde possa dormir sem apanhar uma molha nos dias chuvosos, estando já confirmada, tal ação, de não causar transtornos a ninguém, posso, simplesmente, fazê-lo? Não. E isto? Isto é liberdade?

Tomando então por certo que não somos livres (não considerando, aqui, em nada, sentidos filosóficos) e que nunca o fomos, qual a admiração de nos serem cortados alguns direitos? É por um bem geral, portanto não tem grande perigo. No entanto a questão da liberdade continua a ter o seu interesse. Será que é sequer possível viver-se, em sociedade, com total liberdade? Sem qualquer tipo de regra, sem obrigações ou proibições. Não tenho dúvida alguma de que tal acontecimento iria provocar o caos, atualmente. O lado selvagem do Homem prevaleceria perante o civismo. No entanto não é impossível. Se uma pessoa é formada sob uma boa estrutura de educação, enaltecendo e dando a entender bons valores morais, entre muitos outros fatores que completam a educação, tal pessoa estaria pronta para agir conforme o bem e não conforme uma lei. Sem me considerar exemplo de qualquer coisa, posso afirmar que não mato pessoas só porque a lei me pode aplicar um castigo, não o faço apenas porque é errado e não há nada que me possa encher com o poder de tirar o direito à vida de qualquer outra pessoa.

Pondo os olhos na realidade de hoje, torna-se fácil entender que não é possível viver sem regras, não por enquanto. Esta ideia traz-me de volta ao assunto inicial. Nem é preciso ter dois dedos de testa, basta ter um, para se perceber que numa situação pandémica como esta, há cuidados a ter que devem ser reforçados. Não andar a passear por aí é um deles. O vírus não é algo que se possa ver, lá ao fundo, ao virar da esquina, para podermos tomar a decisão de ir por outro caminho. O corpo de alguém pode estar infetado sem apresentar sintomas, e o vírus não se vai dar ao trabalho de escrever na cara dos infetados que ele está lá dentro, por isso há que ter cuidado com o contacto com outras pessoas. Aqui encontramos um bom exemplo para aplicar a questão da educação nas pessoas. Se deixassem de pensar só nos seus desejos, se utilizassem a cabeça, apenas por dois segundos, para pensar um pouquinho, tomariam a decisão de ficar em casa, apenas por ser a coisa certa a fazer, tanto para o bem pessoal como para o bem comum. Por algum motivo é preferível não pensar. E que grande admiração, não é? É sabido que é mais fácil se forem os outros a pensar por nós.

Os percebedores deste assunto foram avisando acerca de tudo isto, mas não quisemos ouvir e continuámos a viver com a nossa liberdade, até que a tiraram de nós. Agora estamos mais limitados quanto ao que podemos e não podemos fazer. É bem-feitos! Somos todos umas crianças com pouca capacidade de pensamento. Somos livres de brincar com os carrinhos e com os bonecos que quisermos. Se formos seres racionais sabemos que o correto a fazer é não os estragar, mas optamos por não pensar, forçando os nossos papás a intervir e a proibirem-nos de continuar a brincar. As nossas liberdades perdem-se para nos impedirem de fazer mais estragos.

Então e quem impede aqueles que nos tiram a liberdade de causarem mais danos? Bem, este tópico já me levaria mais um monte de palavras para mergulhar dentro dele, e já que eu não tenho liberdade para as utilizar infinitamente deixo apenas a ideia no ar. Talvez numa próxima vez volte a ele.

A liberdade é linda. Eu quero viver num mundo verdadeiramente livre, sem qualquer regra, onde se age apenas com racionalidade e com o bem nas mãos. Mas há um longo caminho até alcançar este sonho. Por isso, por enquanto, precisamos delas, mas porquê não irmos trabalhando nisto? Aos poucos podemos começar a tomar decisões inteligentes, mesmo havendo imensos fatores a considerar quanto se trata de agir corretamente, podemos fazer um esforço para encontrar um equilíbrio entre aquilo que é melhor para todos os envolvidos nas nossas ações. E assim, lentamente, aproximamo-nos da desnecessidade de leis. Saberemos viver em conjunto sem ser preciso qualquer disputa para lá de uma simples e breve conversa entre dois seres civilizados, e quem sabe, um dia, consigamos viver com liberdade total sem termos alguém a dizer aquilo que podemos e não podemos fazer para promover o bem-estar social.