Crónica Opinião

Continuamos afortunados

São vários os fatores que permitem que se crie uma relação entre as pessoas, momentos de felicidade, tristeza, confidencialidade, gostos ou ódios comuns, episódios de stress e aflição, entre muitos outros.

De momento, vivemos todos um episódio de maior infelicidade e dor nas nossas vidas, em que assistimos um número crescente de casos de infeção e mortes pelo novo coronavírus e vivemos numa apertada e necessária quarentena nas nossas casas, que nos impede de ter os nossos rendimentos, estar com quem amamos, assombrados pelas notícias de uma crise económica sem precedente.

Muitas têm sido as observações que se focam na diferença que faz o dinheiro neste tempo de quarentena, sendo mais fácil para os mais ricos, com grandes casas, com espaços exteriores e mais formas de ocupar o tempo.

Porém, o facto de se poder fazer quarentena é já de si uma sorte que infelizmente escapa a alguns.

Em muitos países no mundo, em que a pobreza extrema é uma realidade de grande parte da população, não é possível ficar em casa, não trabalhar, ter máscaras ou álcool ou cuidados mínimos de saúde. São possibilidades inimagináveis que irão permitir ao novo vírus fazer ainda mais vítimas.

Um dos locais de maior preocupação são os campos de refugiados.

Estes encontram-se sobrelotados, sem comida nem água para todos, e as casas não são mais que tendas, juntas às vizinhas, para que possam ter o máximo de abrigos possível.

Os números fornecidos pelas Nações Unidas são assustadores e fazem temer o pior. A agência estima que mais de 70 milhões de pessoas no mundo tiveram de fugir de suas casas devido a perseguições, guerras ou violações dos direitos humanos, sendo que 40% destas vive em campos de refugiados. São 28 milhões de pessoas, a viver em condições mínimas, abaixo do limiar da pobreza e em espaços confinados.

Assim, torna-se imperativo a ação das agências mundiais, pelo que a UNHCR (agência das Nações Unidas para o refugiado) já começou a sua tentativa de juntar fundos, tendo como objetivo inicial 33 milhões dólares, para assegurar a preparação, prevenção e capacidade de ação em casos de contaminação, isto é, reforçar equipas de saúde, equipamentos, máscaras e álcool, saneamento básico e assegurar água potável.

Este valor é menor do que alguns clubes de desporto ou empresas internacionais vão poupar em salários e corresponde a uma ínfima parte do que a União Europeia ou os EUA prometem injetar na economia.

Assim, resta apenas concluir que continuamos a ser as pessoas com muita sorte e a intenção deste texto é que neste momento de maior dor seja possível criar empatia e sensibilidade para com quem sofre e irá sofrer muito mais que a maioria de nós em Portugal, no resto da Europa, na China ou nos EUA ou Brasil onde a presidência deixou a ciência e o valor da vida de parte e se prepara para deixar os mais suscetíveis à mercê do vírus. Desta forma, agora e no futuro, quando nos for pedido, no seio de uma grande crise económica, ajuda para quem mais precisa, não nos esqueçamos do valor de humanidade que agora usamos a nosso favor.