Crítica Opinião

“À Espera De Godot”

Tantas hipóteses num pedaço de terra de cinco homens, ou serão seis?

Na leitura desta peça pareceu-me ver dois jovens aguardando o início da catequese, dois passados ou futuros papas que contrariam a ordem das coisas, que dão aso à descontinuidade. No fundo vejo uma espera numa morte que se delonga a chegar, a vida já tomou muito tempo a estas duas personagens, o juízo final atrasa-se, assim boceja-se e imita-se a morte criando o sono.

Deste modo pode-se ser tudo neste texto de Beckett. Pozzo e Lucky têm espaço para ser, quem sabe, alfarrabistas que no seu cesto têm restos de epopeias de multiversos, que vendem, interpretando cada uma dessas histórias, ora um sendo encenador, ora outro sendo ator: “Pára! (Lucky pára.) Para trás! (Lucky recua.) Pára! (Lucky pára.) Virate! (Lucky volta-se para a plateia.) Pensa!”.

Nestes momentos limite, vessels para a bizarria, entendemos que é melhor falar absurdos do que ser homem “feito” falando mentiras. Ficamos com tópicos em aberto, contos sem desenlace, é como deixar uma ideia no ar, a pairar sobre as nossas cabeças… uma sensível e suspensa teorização de que podemos, quando e onde quisermos, virar animais atrás de ossos e depois abençoar as carnes que separamos quando regressamos ao nosso ser racional. Observamos esta linha ténue nos silêncios prolongados, nos gestos daí alastrados, uma estranheza que aguça o apetite ao caçador que se mistura com as presas.

De facto, é nesta natural tendência de repetição, que exercemos desde o surgimento do mundo até ao atual Homo Sapiens, que reside uma das temáticas desta obra. O pico está no alerta de ainda assim ficarem coisas por dizer, o intelectual do pensamento que comunica muito ritmicamente para não descurar a evolução que lhe é pedida para talvez ter acesso a uma audiência com o Godot. A absoluta necessidade de manter relações superficiais para encontrarmos um menino que nos ponha em contacto com esse mestre do ilusionismo. Gogo e Didi só se têm a si, humanos ou não, também eles tiveram de nascer de algum lado, também eles negligenciaram palavras merecidas a quem lhes era mais próximo para saborearem o tempo com e para o sucesso. Um período agora perdido, possivelmente quebrado, fragmentado entre dias que passam e que pouco deixam – A não ser a árvore, que sempre lá esteve, que subtilmente se faz de moderadora nas conversas que lemos e inda que a memória já falhe, nunca olvidámos das funções de uma corda ou de um cinto nesse elemento da natureza.

É tudo tão limpo no cenário desta tragicomédia, que divididos entre o anseio e o receio começamos a achar que somos poluição deslocada, que aquele lugar não nos merece nos modos que estamos.

A separação é inevitável, adiar em função de uma busca pode ser uma saída, nesse sentido Godot pode ser um pretexto ou uma cilada. Um blind date que só achará caminho quando as mandrágoras despertarem debaixo de dois corpos avessos, de entranhas frias, porém mentes quentes, a ferver, não pelo aperto, antes pela convulsão
que é perder o chapéu e jamais conseguir achá-lo.

O grotesco da vida na salvação que é a morte perante a sempre iminente guerra.

Só se comenta isto em 124 páginas e mais umas que não me atrevo a contar, uma sequela diferente na cabeça de cada um que certamente arruinaria a estrutura deste relatório – Quando sofremos de uma epifania intemporal, é comum preferir comprar um chapéu e guardar tudo lá dentro. Acho que é isso que se faz depois de se ser feliz, preservamos momentos e trazemos à luz diálogos difíceis para quem não o é.

 

Artigo de Raquel Rafael