Artigo de Opinião Opinião

O tema é o mesmo, muda-se a intenção: Apelo à Consciência

De entre muitas das teorias da conspiração, eu aponto o dedo à natureza, que veio apenas relembrar que existe. Muitas vezes desconsideramos a sua existência e são várias as formas como abusamos desta relação entre o ser humano e tudo o que de natural existe, mas a verdade é que a natureza está bastante presente e esta é apenas mais uma forma de ela nos mostrar que somos apenas mais uma espécie num universo que tanto desconhecemos.

Estamos em março de 2020, e só por isso já devem saber qual é o tema deste texto. Seja por televisão, pela Internet, pelas conversas desinformadas nos transportes públicos, ou por qualquer outro recurso tecnológico de telecomunicação, o assunto do dia é naturalmente o COVID-19. Há ainda inúmeros textos que falam sobre o novo vírus e que alertam a população sobre os cuidados a ter. Há páginas web criadas todos os dias sobre o assunto, respondendo às dúvidas das pessoas e informando de forma atualizada o estado dos países afetados. Para lá disso, é também possível ouvir vários especialistas a falar sobre o vírus e quais as suas implicações na saúde.

Estes são apenas alguns exemplos que ilustram o aglomerado de conteúdos que têm vindo a ser partilhados para que as pessoas se mantenham informadas. No entanto, e é daqui que surge este texto, torna-se necessário, numa altura em que o vírus caminha para a fase de mitigação – onde começa a haver transmissão comunitária da infeção -, fazer um apelo à consciência dos portugueses, que têm um papel fundamental na minimização do impacto do coronavírus. Não quero ser uma referência para as pessoas que pretendem saber mais sobre este fenómeno epidemiológico, nem teria legitimidade para o ser. Contrariamente, pretendo abordar o assunto sensibilizando as pessoas para um momento de União, Altruísmo e sobretudo Solidariedade.

Este texto é essencialmente para as pessoas que viram as instituições/empresas onde estudam/trabalham suspender as suas atividades, minimizando os riscos de contaminação e, posteriormente, apelando à responsabilidade social de todos no seguimento das diretivas do Governo e, especificamente, da Direção-Geral de Saúde. É de extrema importância que as pessoas considerem que neste momento o distanciamento e, se possível, o isolamento social é uma das melhores formas que temos para combater as cadeias de transmissão existentes, e que vejam isto como uma oportunidade e uma vantagem relativamente às pessoas que por necessidade dos serviços oferecidos pelas instituições ou empresas onde trabalham, por inconsciência dos seus superiores hierárquicos, ou pelo exercício voluntário ou profissional das suas funções junto daqueles que neste momento necessitam de cuidados médicos, têm um risco maior de contaminação, seja por frequentarem espaços de atendimento ao público, pela necessidade de utilização dos transportes públicos – onde há uma grande afluência de pessoas -, ou ainda pelo contacto diário com pessoas que recorrem aos serviços de saúde com sintomas de infeção. De uma forma resumida, devemos considerar-nos afortunados por podermos escolher entre ficar em casa ou deambular pelas ruas da cidade, ir beber um copo ao Cais do Sodré e/ou ir para a praia de Matosinhos enfiar a cabeça nos plastificados à deriva e, às tantas, na água salgada, fingindo que o agrupamento de pessoas é saudável porque os raios de sol estorricam o COVID-19.

Penso que a utilização intencional dos exemplos presentes na disjuntiva anterior ilustram bem aquilo que não devemos fazer quando é decretada uma pandemia mundial pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e quando a única coisa que nos pedem consiste em ficar em casa. Apela-se à consciência uma vez que ao ignorarmos o distanciamento social, as restrições aconselhadas e as medidas de prevenção deliberadas pela Instituições com competência, não estamos apenas a aumentar a nossa probabilidade de infeção, mas estamos também a condicionar e a adulterar o esforço voluntário, responsável e solidário das pessoas que connosco coabitam e, consequentemente, a contribuir para o possível aparecimento de novas cadeias de transmissão, ou seja, para o aumento do número de pessoas infetadas pelo novo vírus.

Não podemos de forma alguma atraiçoar os esforços que estão a ser feitos, optando por comportamentos irracionais que poderão conduzir à propagação exponencial do vírus na população. Todos os comportamentos são decisivos. Ficar em casa não é apenas uma opção, mas sim uma responsabilidade. Uma responsabilidade individual e social que poderá ditar se esta é uma história atroz com um final feliz, ou um pesadelo monstruoso e extremamente letal que apenas podemos imaginar.

Ficar em casa não é uma demonstração de medo, é uma decisão consciente e responsável. Todavia, todos sabemos que o conjunto de paredes que delimitam a residência registada na segurança social e que, portanto, constituem aquilo a que legalmente chamamos de habitação, nem sempre têm o significado sentimental que deveriam ter. Consequentemente, a tua habitação não tem de ser necessariamente a tua casa. Opta por um ambiente mais seguro e mais saudável. A tua casa pode ser o jardim esverdeado que toda a gente parece ignorar, pode ser aquele banco que costuma desaparecer na primavera. Se precisares de respirar mais fundo, abre a porta, movimenta as pernas como te ensinaram quando eras criança e caminha por entre espaços abertos que te levam até onde tu queres estar. Escolhe uma prosa que queres ler há algum tempo ou vai fazer uma viagem pela poesia que mais te acalma. Fica na tua casa, seja ela onde for, tendo sempre a consciência de que esta deve ser uma ação responsável. Se a tua casa for lá fora, então que isso seja um espaço aberto e despovoado.

Este é talvez o melhor momento para refletirmos. Imagina-te numa dimensão em que tudo o que está à tua volta parou, e finalmente tens a liberdade para escolher o que queres fazer. O capitalismo selvagem adormeceu, e isso fez com que as tuas oito horas diárias de trabalho se transformassem em oito horas com a tua família, no fundo, oito horas em que de repente estás rodeado pelas pessoas que gostas e que tornam, por inúmeras razões, a tua vida mais interessante. Pensa nisso como se finalmente te tivessem gratificado com os dias de férias que realmente mereces, e não aqueles que estão regulados.

Parece já haver diversas sugestões para o que fazer numa altura em que as pessoas ficam por casa. Para aquelas que preferem sair, nem que seja por um instante, há alternativas e conselhos que satisfazem as dúvidas e as incertezas. No entanto, parece-me que não está a ser dada a devida importância aqueles que por algum motivo, estão limitados às ruas desertas das cidades e expostos ao desconhecido. O momento de União, Altruísmo e Solidariedade deve incluir toda a população. Para isto, o Governo terá a responsabilidade de articular uma solução com as entidades competentes e apostar na criação de centros de acolhimento ou na adaptação de espaços para o mesmo efeito. É preciso garantir que estas pessoas não se sintam abandonadas, direcionando-as para locais com as condições necessárias e suficientes, garantindo o acompanhamento médico, as refeições, mantas para dormir, entre outros. Ao mesmo tempo, é essencial que o apoio às Associações de Apoio aos sem-abrigo seja garantido e duplicado, assegurando que os voluntários têm acesso aos materiais de proteção individual necessários à sua atividade perante o cenário atual.

O sentimento de missão cumprida surge quando garantirmos que todas as pessoas cuja profissão não as obriga a sair lá fora, possam ficar garantidamente em casa.

 

Artigo de Leonardo Lopes