Crónica Opinião

DOIS TAMPÕES E UM PRESERVATIVO PARA LEVAR

No final do passado mês de fevereiro, a Escócia aprovou um projeto lei que facilitará a vida de imensas pessoas que são transtornadas com a menstruação: a disponibilização de produtos sanitários gratuitos. Anteriormente, o país já tinha posto em prática medidas como a garantia de pensos e tampões gratuitos em todas as escolas e universidades, medida essa que devia ser seguida como exemplo pelo nosso país.

Nestas escassas ocasiões em que passa uma lei que ajuda aqueles que vivem em condições precárias, eu fico sempre com um pouquinho de esperança na humanidade. Mas como acontece na maior parte das vezes, a ignorância de terceiros prova-me errada e eu fico a escrever textos zangados.

Assim que saiu a notícia, houve uma avalanche de opiniões nas redes sociais, e embora felizmente a maior parte tenha vindo de pessoas com um traço raro chamado bom senso, são sempre as contrárias que atingem o nosso nervo, se calhar porque se fazem ouvir mais. Já repararam que as pessoas erradas falam sempre mais alto? Um caso a ser estudado. Mas estou a fugir ao tópico.

Estas pessoas encontram-se extremamente preocupadas que estando estes produtos disponíveis gratuitamente, iam começar a abusar do privilégio, uma ideia absolutamente ridícula, pois em primeiro lugar não há privilégio algum, é uma necessidade básica, e em segundo como é sequer possível abusar? “Deixem-me aqui enfiar 3 tampões de uma vez já que são gratuitos. Um penso também que mal não faz”.

Para tentar apaziguar estas preocupações, tenta-se explicar que a existência de produtos gratuitos não significa que eu posso chegar ao meu supermercado local, encher os bolsos de tampões e sair porta fora. Significa sim que quem precisa destes e não tem como pagar (por exemplo pessoas sem abrigo que apanham infeções e doenças por falta de acesso a produtos sanitários), pode receber os produtos no local designado. Basicamente um sistema semelhante aos preservativos e pílulas distribuídos gratuitamente no centro de saúde.

E assim começa toda uma outra discussão. Ou porque quem não tem idade para comprar preservativos também não tem idade para sexo. Ou porque o Estado não devia pagar essas coisas. Ou por seja qual for o motivo, pois parece que sempre que há algo gratuito provoca comichão.

Não fornecer contraceptivos não significa que vai ser praticada a abstinência. Significa sim que vai ser praticado sexo sem proteção, que por sua vez iguala a gravidezes não desejadas e a DST’s, que ficam muito mais caras ao Estado do que o fornecimento de preservativos gratuitos. Tudo isto sem referir que a pílula não é só um contraceptivo, serve para regular o ciclo menstrual e mais importante ainda para combater doenças e problemas hormonais.

Tenho também de mencionar que tendo em conta o quão pouco se investe em educação sexual, este serviço é o mínimo. Educação essa que se calhar também resolvia a revolta dos tampões gratuitos, pelo menos talvez não voltasse a ouvir “Não podes apenas aguentar até ires à casa de banho?”.

Nem é preciso usar exemplos de terceiro mundo ou de pobreza extrema (apesar de não poderem ser ignorados), estão bem presentes no nosso quotidiano situações que podiam ser facilmente resolvidas. Jovens que ao vir o período sem estarem a contar têm de interromper o seu dia de aulas, pois não têm onde ir buscar um penso. Casas onde não se pode falar abertamente sobre vida sexual e muito menos onde alguém pode casualmente pedir à mãe dinheiro para preservativos. Ciclos menstruais irregulares ao ponto de causar anemia que podem ser regularizados com o acesso à pílula.

Parece-me que toda esta controvérsia se resume a uma falta de educação, de informação, de noção, de empatia. Talvez seja esta última questão em particular que facilita o desprezar destas questões.

 

Artigo de Susana Henriques