Artigo de Opinião Opinião

A NADA ORIGINAL ASCENSÃO DO BOLSONARO PORTUGUÊS

Em Julho de 2016, praticamente dois anos antes das presidenciais de 2018, Bolsonaro não reunia mais de 7% das intenções de voto nas pesquisas do instituto Datafolha. Lula liderava com 22%, seguido da ambientalista Marina Silva (17%) e do senador Aécio Neves (14%), líder do PSDB, partido que perdera quatro eleições presidenciais seguidas para o PT, incluindo a derrota por apenas 3% em 2014, já após as grandes manifestações de 2013 que redefiniriam a política brasileira e iniciariam o seu atual contexto. Nas redes sociais já pululavam o que hoje são as milícias bolsonaristas, embora fizéssemos piada da esperança que tinham na vitória eleitoral do seu “mito”.

Em Dezembro de 2017, em novo estudo do Datafolha, Lula liderava com 34%, o dobro dos 17% de Bolsonaro, que já era vice-líder e a quem esse mesmo estudo dava a liderança em todos os cenários eleitorais sem a presença do ex-presidente petista. Numa hipotética segunda volta entre ambos, Lula vencia com quase vinte pontos percentuais de avanço (51% contra 33%). Em 22 de Agosto de 2018, mês e meio antes da primeira volta, Lula, mesmo encarcerado, recolhia 39% das intenções; Bolsonaro, 19%. Ainda desdenhávamos. Com Fernando Haddad no lugar de Lula – a quem não só a prisão consumada impedia de concorrer, mas também a Lei da Ficha Limpa, sancionada pelo próprio em 2010 -, Bolsonaro passava à dianteira com 22% e o petista substituto, ainda pouco conhecido a nível nacional, não passava da sexta posição, com 4%. Mesmo assim, estávamos convictos de que os debates televisivos contra candidatos muito mais preparados e intelectualmente articulados minariam as chances de Bolsonaro, porque o melhor argumento contra ele era justamente deixá-lo falar, dizíamos nós, amplamente convencidos de que as suas ideias absurdas, aliadas à incapacidade de desenvolver um raciocínio básico, fatalmente o relegariam ao ridículo.

Com a vinculação da imagem de Lula à candidatura de Haddad, este cresceu em intenções de voto e foi à segunda volta, mas o resultado final do escrutínio todos conhecemos. Bolsonaro, esfaqueado, triunfou sem falar, mas, àquela altura, a comoção (e visibilidade) provocada pelo atentado, mais a ampla aceitação das suas ideias e sobretudo da sua imagem enquanto personificação do antipetismo, foram o ponto de inflexão de uma tragédia à qual não podemos acusar de não se ter insinuado.

Por que recupero memórias e números tão dramáticos quanto amplamente conhecidos? Ora, porque há poucos dias um inquérito da Intercampus, realizado entre os dias 19 e 24 de Janeiro, confirmou a tendência de crescimento político do único deputado nacional do partido de extrema-direita Chega. Eleito em Outubro passado com 67.826 votos (1,29%), em três meses ele terá crescido, segundo o inquérito, quase cinco vezes, atingindo os 6,2%, igualando o PCP e ultrapassando o PAN, ficando apenas atrás de PS, PSD e Bloco de Esquerda.

Para quem acompanhou a evolução do bolsonarismo no Brasil e a confirmação eleitoral da sua ascensão política, o que começa a desenhar-se em Portugal é calafriento. Pior: o enredo é tão previsível quanto inevitável parece ser o seu desfecho. Da ascensão de André Ventura sobressai-se uma perturbadora semelhança com a de Jair Bolsonaro. Replica-se, em Portugal, o que alavancou a extrema-direita no Brasil: a aposta em polémicas diárias para pavimentar o caminho do populismo personalista, orientadas por um reacionarismo fincado em preconceitos e perseguições a parcelas vulneráveis da sociedade e reforçado pela intoxicação das fake news, fabricadas e disseminadas por autênticas agências de propaganda. A grande diferença em Portugal é a ausência, para já, de um elemento tão poderoso como o antipetismo. Mas notem o substrato que chacoalha a superfície do debate público: o descontentamento generalizado e difuso com o mainstream político. É nesse pântano que emergem aspirantes a heróis. Ventura é o político mais mediático do país desde que foi eleito deputado. Profundamente sintomático, isso já é só por si devastador, e o VOX, em Espanha, já havia tratado de minar a outrora celebrada “exceção ibérica”, guardiã da imunidade peninsular à extrema-direita.

Bolsonaro galgou a política brasileira, da nulidade ao estrelato triunfante, surfando no mediatismo, vendendo a imagem de antissistema a todo o custo, sem se importar com as adjetivações que ia colecionando. O português faz exatamente a mesma coisa.

Pretensos outsiders, ambos manejam as iscas dos holofotes e cortejam os dividendos que deles recolhem. Isso quando não são apoiados, de maneira velada ou mesmo descarada, por jornalistas, agências e emissoras inteiras. Vejamos o caso da jornalista Patrícia Martins Carvalho, exposto pela página Os Truques da Imprensa Portuguesa. Após assinar mais de cem notícias sobre André Ventura no Notícias ao Minuto, ela desligou-se do jornal e tornou-se assessora de comunicação do deputado do Chega. Os casos do Correio da Manhã, da CMTV e do Observador, de tão óbvios nem precisam ser explicados. No Brasil, Bolsonaro promove ataques contra a imprensa enquanto usufrui de amplo apoio nas hostes do chapa-branquismo, nomeadamente a TV Record, do bispo evangélico Edir Macedo, o SBT, do magnata Sílvio Santos, e a rádio Jovem Pan. Ademais, praticamente toda a imprensa comercial do país tem defendido com entusiasmo as políticas económicas sucateadoras e privatistas do ministro Paulo Guedes da mesma maneira que bajularam incondicionalmente os atentados ao Estado de Direito do então juiz e agora ministro da justiça Sérgio Moro.

Bolsonaro e Ventura têm também em comum o facto de serem crias do sistema, representações fidedignas da classe política que juram combater. Nas trincheiras do baixo clero esperaram a sua vez. Emergiram do coração do sistema, lapidados por ele, para encenar uma alternativa a tudo o que eles próprios sempre representaram. Quando as pessoas criam laços afetivos com uma personagem dessas, pouco lhes importa as denúncias e as consequências práticas das ideias que ela defende, e, em muitos casos, nas franjas mais despolitizadas da sociedade, também são irrelevantes palavras como “direita” e “esquerda”, porque já não se trata mais de embate entre ideias. Impõe-se a idolatria, a adoração quase religiosa. São os casos extremos de personificação do desprezo pela política.

Os adoradores encontram uma nova zona de conforto dentro da qual concedem ao ícone adorado a função de pensar por eles, enquanto assumem o dever de defendê-lo incondicionalmente. Como uma troca de favores que também é uma troca de papéis. A política sempre foi e continua a ser um espaço em que o emocional impera soberano sobre o racional. Quando atinge-se o ponto em que uma figura é adorada com culto à sua personalidade, tornam-se inócuas mesmo as mais rigorosas argumentações racionais sobre “questões fraturantes”. Estéreis perante o fanatismo arregimentado, elas simplesmente não importam. Os académicos são “doutrinadores” do “marxismo cultural”; as agências de fact-checking, mentirosos a serviço do status quo. Os factos ganham alternativas ao gosto do freguês, disseminadas por quem garante conhecer a verdade sufocada.

Só se confia no que endossa os mantras da seita.

Essa tática é um desafio à esquerda e a quem mais se opuser verdadeiramente ao neofascismo, e não há solução à vista. Se reagimos, denunciando ou confrontando os absurdos dessas figuras, involuntariamente damos-lhes mais visibilidade; se não reagimos, garantimos-lhes a sua normalização. A dádiva do novo populismo neofascista é essa variação do Efeito de Streisand, mas ela também desnuda a desproteção intelectual das nossas sociedades despolitizadas, fraturadas pela ignorância e pela boçalidade que a celebra como virtude.

A tática foi usada também por Trump: “falem mal, mas falem de mim”. Melhor ser infame do que ser desconhecido. Porque, em tempos de crise do sistema, há sempre gente disposta a aceitar e defender qualquer absurdo em nome de uma eventual mudança. Como se qualquer coisa fosse melhor do que aquilo que se tem. Um erro perigoso e constante é nos convencermos de que as ideias absurdas do neofascismo foram irreversivelmente enterradas pela sua derrota moral, e que, quando denunciadas, serão prontamente repudiadas pela totalidade da sociedade. Na realidade, há parcelas consideráveis que vivem à espera de um “salvador da pátria”, de alguém que aos seus olhos pareça desafiar o sistema porque “diz o que pensa sem rodeios”, mesmo que o que pense seja brutal e execrável.

Ventura espelha-se claramente em Bolsonaro. Sonha em seguir o seu percurso. Como impedi-lo, se a Coruja de Minerva, que levanta voos magistrais ao cair do crepúsculo, só se depara com um horizonte tempestuoso, de onde se avoluma a névoa que enturva a vista?

Eis o duro desafio que se impõe a nós, em Portugal, em um contexto que o impõe também a muitos outros países. Longe de ser um discurso derrotista, porque não acredito minimamente em fatalismos, este texto é antes um apelo à racionalidade e à sensibilidade; também, à ação politizadora e à consciência de classe, poderosos antídotos do obscurantismo que emana do também nada original amálgama de fascismo e capitalismo.