Crítica Opinião

“LIBERTA-TE, MARIA”

No dia 15 de janeiro de 2020 fui ao teatro. A noite cobria-se de um nevoeiro imenso, o frio levava as pessoas que tinham a coragem de sair à rua a agarrarem-se a si próprias numa forma de auto-abraço. Nada disso foi suficiente para impedir uma grande quantidade de interessados de encher um auditório, e, certamente, ninguém se arrependeu de sair de casa. Espetáculo esgotado, obviamente. O TMG (Teatro Municipal da Guarda) foi quem acolheu os artistas e espectadores, tendo realizado, sem qualquer sombra de dúvida, um ótimo trabalho, dinamizando cultura, tornando-a acessível, sendo caso para dizer que só não a tem quem não a quer ter. Infelizmente, ainda há quem não lhe ache interesse, mesmo estando ela ali, a dois metros dos nossos pés.

Passo agora a falar daquilo que aconteceu. Sob a orientação da professora Filipa Teixeira, os alunos do 3º ano da licenciatura em animação sociocultural do IPG (Instituto Politécnico da Guarda), mais especificamente: Cindy Vasconcelos, Daniela Rodrigues, Dina Morgado, Filipa Brioso, Glória Ferrão, Jéssica Rêgo, Jéssica Silva, João Janela, João Silva, Maria Braga, Marisa Ibánez, Marisa Peva, Ricardina Pedro, Sara Inácio, Sofia Solá, Telma Reis, e ainda com a participação de um outro jovem, estudante do curso TeSP: Desportos de montanha no IPG, Hamse Muse, realizaram uma peça de teatro cuja temática se prendia em torno da violência doméstica, no namoro, e suas vertentes e problemáticas em redor.

Achei por bem referir os nomes dos envolvidos mais diretos, um por um, pois acredito que todos eles foram fundamentais para alcançar o sucesso, já para não falar no excelente desempenho em cada vertente necessária a esta produção, desde a atuação em si, como o texto, a escolha do título, a crítica, a criatividade, até a imagem da peça, tal imagem que esconde por trás um grande processo artístico, mostrando isto uma enorme dedicação depositada neste projeto. Acho importante fazermos aquilo que está ao nosso alcance para mostrar a nossa gratidão pelos esforços realizados pelos outros, concedermos reconhecimento aos artistas que passam por tantas dificuldades durante a busca pela realização de um bom trabalho. Não há qualquer questão, este foi um trabalho ao nível de muitos profissionais desta área. Foi forte. Fiquei arrepiado. Foi impactante, parecia que tinha levado uma bofetada. E então termina, um auditório inteiro se levanta para aplaudir, e ali termina uma sessão de críticas, muito bem
conseguidas, deixando na cabeça de cada peça da plateia uma semente de pensamentos e ideias, cabendo-nos agora a nós fazer algo para mudar aquilo que está mal no mundo.

A peça chama-se “Liberta-te, Maria!”, um título muito intrigante, uma expressão bastante interessante que me parece tomar a “Maria” como representante das vítimas de violência doméstica e que faz uma chamada de atenção à necessidade de libertação deste tipo de opressões. Esta é uma história que representa as várias facetas mais negativas dos relacionamentos. São-nos dadas a conhecer várias personagens que representam diversas maneiras de ser e estar perante situações quotidianas, especialmente a violência. Aqui, foi feita uma crítica, um apelo, uma intervenção, de uma maneira criativa e interessante, recorrendo por vezes ao humor, o que soube bastante bem, já que se acumulava tanta intensidade sobre o espectador, através da atuação de grande nível por parte dos participantes e também através das mensagens poderosíssimas que iam sendo transmitidas pelo texto. Utilizou-se como espaço cénico uma representação de um prédio, foi ali criada uma pequena simulação de um cosmos social onde se iria desenrolar a história e a ideia que se pretendia transmitir. A meu ver, uma maneira original e cativante de mostrar que problemas de nível global se encontram também ao nosso lado, no nosso dia a dia, num lugar tão mínimo como o pequeno edifício onde podemos viver.

Não me posso esquecer de dar os meus parabéns aos alunos, à professora, e restantes organizações envolvidas, pelo fantástico resultado que obtiveram. Volto a repetir-me, foi de notar o grande profissionalismo dos ‘atores e encenadora’ e percebe-se também que, por trás daquela obra, há muito, muito trabalho, tal trabalho que deve ter o reconhecimento que merece. Fiquei arrepiado durante todo aquele tempo que estive sentado no auditório. Sem dúvida alguma, foi um teatro de nível profissional.

É bonito, é agradável ver pessoas jovens tão interessadas em intervir, com vontade de despertar novos pensamentos. É sem dúvida uma urgência, precisamos de pernas novas, pernas belas, fortes e jovens, já que os velhos intervencionistas estão a começar a deixar-nos. Com muita tristeza afirmo que, aos poucos, vamos perdendo a nossa frente de vanguarda. Onde estão os revolucionários? Onde estão os pensadores, para virem pôr juízo à malta? É preciso reabrir discussões que se julgavam já encerradas, temos de ir até à raiz dos problemas e levar lá soluções para os cortar de vez. Se nos contentarmos com o cortar de um simples ramo da nossa árvore de confusões, daqui a um ano, esse ramo volta a crescer para nos fazer mais sombra.

No final da peça houve um debate, entre espectadores e artistas, de carácter íntimo, o que considero ser uma excelente ideia. A conversa não manteve muito o seu foco nas questões técnicas e artísticas da composição teatral, por outro lado, dispersou-se um pouco para questões mais filosóficas, daquelas que poderiam gerar boas discussões. Contudo, foi um ótimo momento. Bom para dar opinião, para ouvir novas ideias, para refletir, e, muito importante também, para deixar inquietação no ar. No fundo, inquietação é aquilo que o ser humano necessita para poder evoluir mentalmente. Precisamos desta vontade de não estarmos satisfeitos com nada. Tudo se faz mal! Tudo está errado! Tem que haver mudanças em tudo e para tudo! Tenham calma… havemos de lá chegar, eu acredito que sim, desde que continuemos nesta busca incessante pela insatisfação cultural.

Abordou-se um tema forte e que, infelizmente, continua a ser recorrente hoje em dia. Devido aos hábitos que a civilização cria ao longo dos tempos, todos nascemos e crescemos no meio de um regime violento onde vigora um conceito de posse. Como seria de esperar, isto traz consequências, más consequências. Há homens a bater nas mulheres e nos filhos, mulheres a bater nos homens e nos filhos e filhos a bater nos pais e nas mães! Como é possível chegar-se a este ponto? Eu, honestamente, não compreendo como é que coisas destas acontecem. O que leva uma pessoa a bater noutra? Por que raio há de estar plantada na cabeça das pessoas a ideia de superioridade? Sentes-te forte, não é? Tu és o maior, pá! Não há qualquer tipo de dúvida de que o corpo de outro ser te pertence, tu mandas nele, fazes aquilo que queres dele. Mas atenção! Não há problema nenhum nisso. E porquê? Porque sempre foi assim, são questões de cultura, não podemos renegar aos nossos costumes, não podemos evoluir.

Ridículo, certo? Mas é o mundo real. E o que se pode fazer? Isto é uma pergunta simples, mas com uma resposta bem mais complicada. Eu alerto para a educação. Desde cedo é necessário abrirmos os olhos àquilo que é bom e mau, não para aquilo que é costume. Quer dizer, estou na rua, sou empurrado por alguém, o que faço? Vou a correr atrás desse sujeito para o empurrar também? Pois claro! Tens que te defender. Se te baterem vais ficar quieto? Isso é para fracotes. Meus amigos, por favor, ganhem consciência dos vossos atos. Ninguém consegue alcançar a paz através da violência.

Receio que me possa ter começado a desviar um pouco do tópico principal da obra, as minhas desculpas. Debruçando-me então, novamente, no centro do tema. A violência é algo desumano, e a violência doméstica e no namoro são coisas que de certeza acontecem à nossa volta. Vamos estar mais atentos, de hoje em diante, ser mais solidários para com os outros, não deve haver qualquer rancor que nos afaste da humanidade, do resto da nossa humanidade. Se conheceis alguma ‘Maria’ que precise de ajuda, ajudai. Se sois uma ‘Maria’ então ganhai forças e não tenhais medo de agir. Libertem-se e lutem por vós, sem que seja preciso alguém gritar: “Liberta-te, Maria!”.

Francisco Gama