Artigo de Opinião Opinião

A PRIMEIRA TENTAÇÃO DE CRISTO E A ENÉSIMA PROVAÇÃO DOS CRISTÃOS – PARTE I

Da crucificação da laicidade à sanha teocrática num Brasil entorpecido.

A religiosidade expansiva tem sido, há tempos, um sério problema na sociedade brasileira. Um problema constantemente empurrado com a barriga, incólume, escamoteado por sucessivos governos e conjunturas. Lula e Dilma, de quem talvez nós, progressistas, esperássemos uma postura mais afincada na defesa da laicidade, aliaram-se tanto quanto puderam aos neopentecostais. Fizeram-lhes agrados e concessões em nome de pactos e eleitoralismos, enquanto eles encorpavam a sua influência política por meio de poderio social e económico. Longe de envolver apenas os evangélicos – porque a religiosidade expansiva não é uma mera questão doutrinária: é, antes, um vício comportamental de um país profundamente supersticioso onde “ideologias religiosas” se manifestam expansivamente –, é neles, contudo, em função do seu vertiginoso crescimento numérico (mais arregimentação de rebanho significa mais arrecadação de dízimo) aliado ao seu grau de fanatismo, que se encontra o epicentro do mais perigoso movimento fundamentalista talvez de toda a república brasileira.

São comuns, tendo sido amplamente normalizadas, práticas de pregação religiosa em ambientes públicos, especialmente nos transportes coletivos, onde cristãos reivindicam o direito de atentar contra o direito de quem quer que seja a uma oferta de transporte público confortável. A falta de bom senso e de um inequívoco entendimento generalizado sobre as diferenças entre espaço público e espaço privado não explicam totalmente a ingerência proselitista. Casos como esse evidenciam uma realidade em que o fanatismo religioso apropria-se do direito público para o moldar segundo as suas conveniências, violando, inclusive, mecanismos legais já existentes em certos contextos. Por mais religiosa que seja a grande maioria da população brasileira, parece improvável que um número significativo de passageiros esteja realmente interessado numa qualquer palavra sagrada enquanto se locomove, ainda que relevante, nesse caso, seja não a apreciação da vontade maioritária mas o fato de que transporte público não é espaço de pregação religiosa. Porém, os fanáticos sabem que podem ignorar o direito público quando uma qualquer forma de direito divino lhes protege num Estado Laico desprovido de coragem – e vontade – de se fazer valer, mas muito bem provido de ornamentos, como a laicidade ou o crucifixo na parede da sua suprema corte.

Há inúmeras situações em que a religiosidade expansiva não tem qualquer respeito ou consideração pela vontade alheia ou pelo Estado Laico. Na escola pública brasileira dos anos 90, contexto em que fui estudante primarista e secundarista, a doutrinação cristã sempre esteve presente para atuar dentro da estrutura estatal – supostamente laica – aproveitando-se dela para impor um ensino confessional. Essa ingerência gozava da total conivência de ministérios, secretarias, direções, professores e pais. Tive o desprazer de ter sido submetido a situações de autêntico terrorismo psicológico em aulas de Religião e de Educação Moral e Cívica, sobretudo por parte de uma senhora evangélica que banhava toda a turma com rajadas de saliva enquanto discursava, tamanha era a paixão fanática da sua pregação em salas de aula. Foi sob suas ordens que tive de ler e reler a Bíblia (oferecida pela escola como mais um manual escolar), cantarolar hinos de louvor e rezar em voz alta perfilado com meus colegas como se em vez de turma fôssemos uma seita infantil. Nessa época, já na puberdade, eu dormia escondido sob camadas de cobertas (apesar do calor infernal – ou celestial? – do litoral nordestino) para escapar ao lobisomem que, segundo a mesma “professora”, fazia inevitáveis visitas noturnas a crianças não batizadas para as sequestrar e devorar. As aspas que questionam a real função daquela senhora se justificam com o facto de que fundamentalistas evangélicos ocupavam (e seguramente ainda ocupam) vagas de docência em estabelecimentos públicos para converter estudantes em rebanho e transferir pessoas de escolas para templos. Quando hoje me deparo com os planos maléficos do tal “marxismo cultural” sendo denunciados por conspiracionistas de extrema-direita – todos cristãos de um cristianismo mais anti-Cristo que o meu ateísmo –, é dessa experiência de infância que me lembro.

O fundamentalismo não é novidade e não surge na esteira do bolsonarismo – embora este o encoraje sobremaneira e tente convertê-lo em política de Estado. É fenómeno já antigo que fincou raízes na sociedade brasileira gozando de uma permissividade que é em si um atentado contra o princípio de laicidade. Se há 25 anos eu fazia chacota com a alucinação histriónica dos neopentecostais (talvez para compensar o terror que graças a eles me acometia), hoje encaro-os como uma ameaça gravíssima. Explico: não satisfeitos com a liberdade religiosa que lhes garante – e bem – a prática da sua fé, os líderes evangélicos – com honrosas exceções – desenvolveram uma doutrina adaptada a intuitos de dominação política, para a qual a própria “teologia da prosperidade” contribui. Dessa forma, arregimentando hordas de dedicados fiéis que também são eleitores, eles conseguem ir mais longe que os católicos na luta contra o Estado Laico mesmo representando “apenas” um terço destes. E digo “apenas” porque de 1970 para cá – os dados que se seguem são do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – o seu contingente mais que quadruplicou, passando de 5,2% para 22,5%, enquanto os devotos da igreja romana diminuíram (reconverteram-se, em grande parte) em quase 30%. Segundo um discurso que tem feito considerável eco e se tornado oficial, existe um ambiente ou mesmo um plano cristofóbico no Brasil. A força quantitativa somada de ateus, não religiosos e adeptos de doutrinas não cristãs é inversamente proporcional ao alcance dessa alucinação/retórica teocrática: 13% da população. Eu não tenho dúvidas de que uma teocracia cristã é o sonho dos mais destacados líderes evangélicos e dos mais fervorosos católicos praticantes que associam a sua fé a um pensamento político dito conservador, mas que é antes reacionário. A esse sonho Bolsonaro adicionou o elemento militar (e miliciano) para completar a ideologia fundada na tríade Deus, Pátria e Família, o mesmo do movimento integralista de que falarei na segunda parte do texto.

Desde que me aterrorizaram na escola, quando eles já se instalavam nas periferias, os evangélicos edificaram redes de templos – alguns gigantescos, verdadeiras demonstrações de poder, e em ambos os lados do Atlântico –, compraram emissoras de televisão e de rádio, infiltraram-se fortemente na política, montaram a sua própria bancada parlamentar e se disseminaram pela Internet. Tudo graças a um projeto muito bem planeado empreendido junto ao povo, atuando como substitutos do Estado (e da própria Igreja Católica) em todos os lugares em que este se mostrou ausente, nomeadamente nas periferias e nas favelas. A teologia da prosperidade que “emancipou” bispos praticamente pulverizou das classes populares intentos mais abrangentes de implantação da teologia da libertação que pretendia emancipar o povo. Hoje, a esquerda brasileira discute uma forma de aproximar-se dos evangélicos. Pudera! Nas últimas eleições presidenciais o seu voto foi, ao lado do dos sulistas, o mais decisivo para a vitória de Bolsonaro. A respeito disso, tenho duas dúvidas: a primeira é sobre se a esquerda terá condições de adaptar o seu discurso ao pensamento neopentecostal, já que o inverso está obviamente fora de questão; a segunda, se isso será realmente desejável. Não se soluciona um problema adaptando-se a ele.

 

[Ler: Parte II]