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TROMPE L’ŒIL OU O JESUS FICTÍCIO DOS OUTROS

Arte permite, então, a visão de mundos que não o nosso, obriga ao diálogo e ao questionamento dos nossos próprios valores e ideias, enfim ajuda a imaginar outros para além de nós mesmos. Arte é comunicação, que se materializa, num nível imediato, entre o recetor e o recetor ele-mesmo.

Estranha-se um Jesus Cristo homossexual. Estranha-se um Deus que mais se parece com um animal no cio. Estranha-se um José burro e incompetente. E já Chklovski na sua «Arte como processo» teorizava sobre o estranhamento: «A finalidade da arte é dar uma sensação do objecto como visão e não como reconhecimento; o processo da arte é o processo de singularização dos objectos e o processo que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção.» (TODOROV, vol 1, 1978: 103) E o que é estranho n’«A Primeira Tentação de Cristo» da Porta dos Fundos é o desenrolar de uma narrativa ao qual não estamos habituados. É o hábito que fomenta a estagnação.

Qualquer obra de arte constrói um mundo, uma narrativa enquanto possibilidade – e as parecenças ou os desvios relativamente ao nosso mundo não são meras coincidências. Tudo no campo da arte significa.

Assim sendo, é mais do que natural – mas não necessariamente obrigatório – que a receção de objetos artísticos proporcione no apreciador de arte a abertura dos seus próprios horizontes, uma tolerância que é fruto desse confronto que se faz pela diferença.

Arte permite, então, a visão de mundos que não o nosso, obriga ao diálogo e ao questionamento dos nossos próprios valores e ideias, enfim ajuda a imaginar outros para além de nós mesmos. Arte é comunicação, que se materializa, num nível imediato, entre o recetor e o recetor ele-mesmo.

É pela arte que contactamos com o que a vida nos não oferece – ou partilha sim, mas de modo menos explícito e consciente. E sendo uma esfera distinta da do quotidiano, o texto artístico pede uma leitura própria, alheia à que usamos para avaliar a realidade. Deste modo, não podemos julgar uma construção de mundo com a construção que nós próprios edificámos para o mundo. Não se pode; não é plausível comentar um Jesus fictício com o Jesus histórico – ou a ideia que temos dele – e muito menos com um Jesus simbólico, que é nosso credo. Não podemos ler um quadro detalhe a detalhe, quando o efeito trompe l’œil nos obriga à distância para que as partes funcionem como um todo. Enquanto o leitor se fixou num Jesus homossexual falhou, por consequência, a mensagem global da curta-metragem.

O ataque e tentativa de incendiar a sede da Porta dos Fundos no dia 24 de Dezembro é um ato extremo e condenável que parte da ignorância dos que se recusam à arte e sucumbem à intolerância, ao ódio; consequências de um egoísmo intelectual e de uma perigosa premissa – a de que “a minha religião é verdade absoluta e intocável.”

Demonstrações impertinentes como a deste atentado só revelam a aversão ao estranho, à saída da zona de conforto, ao questionamento; enfim, à progressão, ao autoconhecimento e melhoria humana.

Termino estas breves considerações com um reparo sobre a minha própria ignorância. Quando primeiro comecei a debater questões do foro religioso com pessoas crentes também eu mantinha uma postura negativa relativamente aos credos dos outros. Apenas a arte me pôde salvar do erro que é olhar outras possibilidades e visões de mundo para além da minha.

A arte previne atos e pensamentos terroristas. É por isso que não pode ser avaliada com elementos que lhe são exteriores.

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