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UM TIRO CERTEIRO A QUEM NÃO É OBJETOR DE CONSCIÊNCIA

Objeção de consciência? Não, não são doentes nem cobardes. Nem tampouco são carne para canhão – literalmente. Ser objetor de consciência é ser um inconformado com o cego militarismo. E quem não o é vai sempre estar na mira como um potencial assassino.

Aos dezoito anos, os meninos e as meninas são legalmente adultos, responsáveis por toda e qualquer ação. Como se votar, tirar a carta de condução e evitar reprovar na faculdade não fossem afazeres e preocupações suficientes, Portugal tem a decência de roubar a cada jovem um dia inteiro – porque o Serviço Militar Obrigatório já acabou, mas ninguém sacudiu as migalhas.

Na impossibilidade de esquecer, ignorar ou sequer enumerar todos os passados acontecimentos lamentáveis derivados de práticas militares violentas e da aprovação de políticas armamentistas, é de questionar a necessidade de manter de pé o Dia da Defesa Nacional.

Estamos numa era de morte sentenciada das cartas. Por isso, não é de estranhar que qualquer millennial vibre com a receção de um envelope, em casa, para si endereçado. No papel, indicam uma data, uma hora e um quartel. Vincam a negrito a obrigatoriedade de comparecer, senão o mundo acaba e eles pagam uma multa e assinam “atenciosamente”, como se não tivessem acabado de fazer um convite para uma manifestação a favor do militarismo, das armas e da imposição da vontade de um sobre a vontade de outro.

Como esta geração só recebe mensagens no whatsapp, acha as cartas coisas vintage e românticas. Mas, acima de tudo, porque temem pagar uns temíveis 1247 euros (que, sabe-se lá para onde ou para quem vão), eles lá acabam por ir. Quase todos. Sem sequer questionar. Com exceção de três tipos: os esquecidos, os libertinos e os decentes. Os esquecidos deixam a data passar, os libertinos não vão porque não lhes apetece e os decentes faltam porque não há razões lógicas para ir. E, de facto, não há. Porque é que as Forças Armadas têm de ter um dia especial para promover os seus feitos e recrutar canalha e mais nenhuma profissão tem?

Diz respeito à segurança de todos, atiram eles. E também vão dizer que a guerra é importante porque sem ela não há paz e que a força militar é necessária para o país conseguir fazer frente às ameaças externas. Vão explicar que os soldados portugueses também se ocupam de missões e salvamentos emocionantes lá do outro lado do mundo e vão justificar os balúrdios investidos em tudo, desde fatiotas a submarinos. Durante o dia ainda dão um minuto de antena aos bombeiros e à polícia e até falam de redes sociais – e até é disso que os miúdos gostam.

No fim, os entusiastas argumentam que acaba por ser um dia diferente, engraçado e informativo, que não se fala só do exército e que nem obrigam ninguém a pegar nas armas. Muitos jovens gostam e aprendem, alguns fazem amigos e uns poucos até percebem que é ali que querem ficar. O que, aparentemente, Portugal não percebe é que só enche quarteis à custa da chantagem e ameaça de consequências e não fruto da vontade de lá estar. O que, aparentemente, Portugal não quer admitir, é que o Dia da Defesa Nacional nasceu como uma solução desesperada ao desinteresse generalizado pelo absurdo que é lei da força. Mas, Portugal, é fácil: da mesma forma que os curiosos em Biologia Marinha vão ao Zoomarine, os aflitos para andar a marchar fardados com pistolas à cinta, hão de arranjar forma de se informar.

A questão agrava-se ainda mais quando o país não é transparente e censura opções. Se Portugal acha que se deve informar os meninos e as meninas, por carta, que as Forças Armadas existem, muito bem: gastem papel à vontade e digam aos jovens que eles podem lá ir dar uma vista de olhos. Podem. Como podem ir a um hospital, a um gabinete de advogados ou a um estúdio musical. Mas o que não se tolera é encaminharem a manada para o belicismo e, em momento algum, apresentarem a possibilidade da objeção de consciência.

Objeção de consciência? O que é isso? Não, não são doentes nem cobardes. Nem tampouco são carne para canhão – literalmente. Ser objetor de consciência é ser um inconformado com o cego militarismo e apelar para que se desmontem as armas, se elimine a violência e se discuta com palavras e gestos (mesmo que feios) o futuro do país e do mundo.  E a paz é o futuro. Mas, neste momento, poucos são os crentes no futuro porque não há sequer indícios de paz. Há guerras, há torturas, massacres. Há medo, sangue e choradeira. Talvez porque poucos saibam sequer o que é um objetor de consciência. No fundo, é ser uma pessoa decente. E quem não o é vai sempre estar na mira como um potencial assassino.