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O COMPLEXO CASO DE CASTER SEMENYA

A atleta mais dominante dos últimos tempos no atletismo feminino, conquistando o ouro na prova dos 800 metros desde 2009, Caster Semenya encontra-se agora proibida de competir e defender o seu título de campeã mundial conquistado em 2017.

Após decisão do Tribunal Federal suíço ter apoiado a Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), a sul-africana ficou impedida de participar nos mundiais deste ano em Doha, devido aos seus elevados níveis de testosterona e a sua recusa em realizar um tratamento para os diminuir.

No entanto, esta decisão da IAAF em nada se apresenta simples, uma vez que a testosterona de Semenya é natural e não devido a doping, pois esta possui órgãos reprodutores internos masculinos e externos femininos, pelo que sempre viveu como uma mulher apesar de quimicamente ter mais semelhanças com os homens. Desta forma, Semenya é capaz de produzir níveis elevados de testosterona que aceleram o seu crescimento muscular e a sua recuperação, colocando-a a um nível atlético superior ao das restantes atletas do setor feminino.

Na grande maioria dos desportos do mundo, atletas masculinos e femininos competem separadamente por essa mesma razão, a vantagem que os homens, fisicamente, apresentam em relação às mulheres, quer seja no ténis, futebol, basquetebol, entre muitos outros desportos, pelo que a separação de género é importantíssima para que as atletas femininas tenham o seu valor e esforço premiado e a competição seja mais inclusiva.

Se por um lado se defende os direitos de Semenya poder competir como é, sem ter de se sujeitar a um tratamento hormonal e considerar a sua diferença apenas uma vantagem natural, como as mãos de Michael Phelps ou a altura de Shaquille O’neal, não se pode acusar a ação da IAAF de ser sexista, racista ou como um ataque aos direitos humanos. A sua suspensão é necessária e compreensível.

A vantagem de Caster Semenya assenta na diferença de género e com quem é mais justo a atleta competir. Apesar de a mesma ter vivido como mulher, ignorar o facto de esta ser hiperandrógena poderá abrir o precedente de qualquer homem que decida realizar mudança de género, vivendo como mulher, mas sem se sujeitar a tratamento hormonal, vai ter a mesma vantagem sobre todas as mulheres, pelo que a ausência de controlo pode levar a que nenhuma mulher venha a ganhar ou competir num desporto.

Pessoas transgénero e intersexo merecem o respeito e direitos iguais a todos, porém, a sua participação num desporto em que o género resulta num diferente nível competitivo ainda é um assunto que tem de ser bem analisado e compreendido, de forma a encontrar uma solução que permita a participação de todos, premiando o talento e o trabalho e não uma vantagem hormonal.

Artigo de Luís Pinheiro. Revisto por Adriana Peixoto.