Crónica Opinião

O LIKE NÃO TE VAI SALVAR

“Fogo, só tive 50 likes na última foto que postei no Instagram. A minha vida acabou!” diz uma. “Pelo menos, ainda tiveste um dez comentários. Já eu tive 80 likes, mas só dois comentários e um deles é do meu namorado. E, como é óbvio, ele tinha de comentar” diz-lhe a outra.

Ia eu, no metro, a caminho de casa, quando, por acaso, dou conta da conversa sobre fotos no Instagram, entre duas jovens. Não teriam mais do que 14 anos, penso eu. A verdade é que fiquei extremamente admirada com a conversa. Como pode uma rapariga estar tão preocupada com likes e comentários? Para não falar das poses que as duas iam discutindo ao longo do caminho.

A realidade atual é que os jovens, e cada vez mais crianças, vão-se afeiçoando às redes sociais de um modo assustador. Como se aquele website pudesse dizer se sou boa ou má, se sou gira ou feia, se sou bem sucedida ou não, se tenho futuro ou não.

No entanto, não é isto que me assusta. As crianças vão continuar a disputar algo. Antigamente, discutiam sobre quem tinha melhores jogos para o Game Boy ou qual era o melhor cantar dos Excesso. Nada disto vai mudar. Existe um necessidade, inerente aos jovens, de discutir os seus ideais e as suas escolhas. De partilharem gostos com amigos e de se pavonearem quando têm algo melhor que os outros. As crianças são assim e, por muito que tentemos contrariar esta tendência, existem forças maiores que as tornarão como elas são.

Assusta-me, sim, a manchete que apareceu há uns dias nos jornais online. O Jornal de Notícias avançou: “Violou colega de 14 anos nas traseiras da escola e expôs vítima no Instagram”. Esta realidade assusta-me. A violação tem vindo, cada vez mais, a aparecer entre as notícias do quotidiano, como se fizesse parte desta nova “normalidade”. É inacreditável como ninguém se revolta com estas notícias, como é que ninguém tem coragem de mudar… Mas, como é normal entre os portugueses, se não me incomoda, não vou mudar. Contudo, esta notícia deixou-me, de certo modo, incomodada. Acho que alguém por aí também deve estar frustrado como eu. Mas não pelo mesmo motivo. Acredito que se incomodem pelas idades. Também é aterrador saber que alguém que ainda não atingiu a maioridade é capaz de cometer um ato tão vil. Nem quero pensar no que será o futuro deste jovem. Provavelmente, nem o terá. O que me deixa com vontade de gritar aos céus é a necessidade deste jovem publicar, não uma, mas várias fotografias da pobre rapariga, nua, nas redes socias. Como é que alguém tem coragem de fazer uma coisa destas? E diz ele que as fotografias mostram que o ato foi consentido pela vítima, que ela aceitou ter relações com ele. Quando, na verdade, a pobre rapariga foi encontrada com a roupa suja e a chorar. Mas, espera lá, que ele diz que ela quis. Daqui a pouco, até é capaz de dizer que foi ela que pediu.

Qual era a necessidade de publicares aquelas fotos? Qual era a necessidade de humilhares ainda mais a rapariga indefesa? Para te subir o ego? Para seres o melhor entre os teus amigos? Para teres aquele like? Aquele comentário? Ou foi apenas pura barbaridade? Estupidez? Maldade? Espero que a justiça seja feita e que tenhas o castigo que mereces. E lembra-te, quando receberes a tua punição, o comentário do teu amigo não te vai sevir de nada e o like não te vai salvar.

Artigo de Beatriz Matos. Revisto por Adriana Peixoto.