Crónica Opinião

A NECESSIDADE DO COR DE LARANJA NUM MUNDO A PRETO E BRANCO

A sétima arte não costuma ser um dos meus temas de eleição para uma crónica, mas há filmes e séries, que dada a arte da conceção dos mesmos, o merecem.

Acabei recentemente de ver a sétima e última temporada de Orange Is The New Black, a série que qualquer pessoa deveria ver, mas também a que pouca gente tem coragem de começar, desde um advogado a um enfermeiro, de um médico a um psicólogo. Esta foi a série que me ensinou a destraçar todos os perfis e todas as ideias fixas que tinha sobre a vida numa cadeia. Ideologias como prisões perpétuas ou penas de morte desvaneceram-se porque ninguém se resume a uma só ação, a um só momento menos bom numa vida repleta de histórias e condicionantes. Sou estudante de Direito, mas foi esta série que me ensinou a respeitar os direitos de quem se senta num banco de trás de um carro da polícia, pois não deixam de ser pessoas por isso.

Desde séries de adolescentes a policiais, temas como a homossexualidade, o racismo ou o feminismo têm sido foco de atenção, mostrando estas a necessidade de respeito por tudo e todos independentemente das suas escolhas e orientações. E repito aqui a mensagem: não deixam de ser pessoas por isso.

Nesta série surge-nos uma muito particular interpretação que vai mais além da abordagem secundária que todas as séries deste milénio visam saber. Orange is The New Black esmiúça estas questões com uma tipicidade incomparável em todo o cinema do século XXI, não nos mostrando só que devemos aceitar todos mas ensinando como é que o devemos fazer. E esta é a beleza por trás desta série, um conceito novo e contemporâneo, uma tentativa muito bem conseguida de nos mostrar a perfeição na imperfeição humana, pois todos nós somos humanos e nenhum de nós é perfeito.

Ultrapassando todas as barreiras estéticas de Hollywood, mostra-nos a realidade como ela é, num perfeito enquadramento de culturas, religiões e raças, com um frio ambiente prisional de fundo. A série envolve-nos e ensina-nos a dar segundas oportunidades, ensina-nos a não ver o mundo a preto e branco, distorcendo e quebrando ideias estritas e fixas entre o que é o bem e o mal, mostrando todas aquelas áreas cinzentas (aqui transformadas em cor de laranja) que tão receosamente são, poucas vezes, trazidas para o pequeno ecrã.

Esta série, da autoria de Jenji Kohan, não procura pela fama exorbitante e desenfreada de Game Of Thrones, por exemplo, nem a conseguiria, dado o seu contexto. Não temos aqui dragões ou constantes cenas intensas e “fixes” de batalhas entre reinos, apenas mostra o sofrimento e a realidade de milhares de pessoas que veem todas as portas fechadas, mesmo após cumprirem a sua pena, por um erro passado que os levou por piores caminhos; uma atitude que veio condicionar toda uma vida. Não estou a desculpar qualquer comportamento, estou a dizer que todos cometemos erros, todos somos humanos imperfeitos. Mas isto deixa-nos bastante desconfortáveis, fiquemo-nos pelo conforto então. Mas não nos esqueçamos que ninguém deixa de ser pessoa por isso.

Artigo de Francisco Lima. Revisto por Adriana Peixoto.