Artigo de Opinião Opinião

UMA QUESTÃO SALARIAL

Não foi há muito tempo atrás que estava a ler vários comentários sobre o salário que se ganha no futebol feminino e a grande diferença comparado ao futebol masculino. Um dos grandes argumentos que vejo é, “as mulheres estão a fazer a mesma coisa que os homens, então porque não receber o mesmo? É tudo futebol”. Não estão errados, mas um aspeto em comum que noto neste tipo de comentários é que costuma vir de pessoas que não se interessam pelo desporto, e isso torna-se claro quase de imediato devido à falta de sucesso em justificar os seus fundamentos.

A questão do machismo é também bastante abrangida no meio destes argumentos. Não discordo de tudo o que dizem, mas não concordo que isso seja o centro deste problema em específico. A justiça salarial também é abordada várias vezes, mas então e a visibilidade que cada modalidade de desporto atrai? Todos sabemos que o desporto, principalmente nos dias de hoje, vive das audiências que concentra e do número de pessoas que consegue atrair, para mais tarde investirem patrocínios, que dão também imenso dinheiro.

Este assunto surgiu após notícias de que a melhor jogadora de futebol, Marta Silva, havia recusado ser patrocinada até que os salários no futebol feminino se igualassem aos do futebol masculino. É com toda a legitimidade que me encontro do lado da jogadora ao querer igualdade salarial no desporto. No entanto, vejo que apesar de serem a mesma modalidade de desporto não é possível, pelo menos para já, que os salários que são atribuídos a estrelas de futebol feminino se aproximem sequer dos do futebol masculino e tem tudo a ver com a visibilidade que cada desporto recebe. A verdade é que o futebol feminino não tem obtido o devido reconhecimento e isso não é culpa de quem atribui os seus salários, mas sim de nós, o público, que somos relativamente poucos a ver e a apreciar o desporto feminino.

O pensamento antigo de que o futebol não é para as mulheres ainda está muito presente na nossa mente e por mais que não queiramos admitir tal coisa, isto acontece e contribui para a atratividade que o futebol feminino acaba por ter. Outro fator que pesa nesta diferença de salários é o facto de o futebol feminino ser recente comparado com o futebol masculino, e as pessoas precisam de tempo para se habituarem a este desporto. Infelizmente, a mudança de mentalidades é algo que leva muito tempo, mas esta evolução que se tem verificado é bastante importante.

A igualdade salarial é algo pelo qual as mulheres têm lutado desde que se tornaram efetivamente parte do setor ativo e que fazem o mesmo trabalho que os homens. Cada vez mais mulheres se têm infiltrado nos chamados “trabalhos para homens” e têm lutado pelo devido respeito nos locais de trabalho. Estamos a falar de mulheres que trabalham nas mesmas secções que os homens, por vezes há mais tempo, e mesmo assim conseguem receber menos que homens que estão no mesmo cargo, quer estes tenham menos ou mais experiência de trabalho.

Um exemplo que me ocorre referente a este tipo de situações é de um caso que aconteceu no programa americano E! News. Catt Sadler, uma das apresentadoras mais antigas do programa de noticias sobre celebridades, sentiu a necessidade de se ir embora do canal E! após perceber que o seu colega Jason Kennedy estava a receber quase o dobro do salário, quando este tinha menos anos de trabalho no canal e realizava basicamente as mesmas funções que Sadler. Apesar de ter sido um caso até mediático, a verdade é que caiu muito rápido no esquecimento, talvez por ser apenas mais uma mulher a queixar-se da diferença salarial.

Esta situação não se compara exatamente ao tema do futebol feminino, mas enquanto não conseguimos igualdade salarial em empregos onde homens e mulheres trabalham em ambientes mistos, não haverá igualdade salarial onde estes dois géneros se encontram em ambientes diferentes. No entanto, se não conseguimos chamar a atenção deste problema com os nossos empregos comuns, talvez chegaremos até eles através de casos mais mediáticos, como este do futebol.

Apesar de tudo isto, o futebol feminino tem crescido cada vez mais ao longo dos anos. Cada vez mais pessoas apoiam estas raparigas que estão a quebrar vários recordes e a fazer coisas espetaculares, como se viu no mundial feminino realizado há uns meses, e parece-me que esta barreira enorme que existe entre o desporto feminino e o masculino vai desaparecer aos poucos. Este processo vai ser lento, mas acredito que se chegue ao estado em que os patrocínios quererão investir mais no futebol feminino e depois, quem sabe, até noutras modalidades, porque infelizmente o futebol não é o único desporto onde a disparidade de salários entre homens e mulheres é tão evidente.

Artigo de Sandra Seidi. Revisto por Adriana Peixoto.