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PORQUE É QUE A MINHA VIDA VALE MAIS QUE A TUA?

Damos como garantida muita coisa. Termos nascido “numa Europa”, nesta aldeia global, é uma delas. Mas agora como será ter nascido num país, por muitos denominado, de “terceiro mundo”? Terminologia desde já merecedora de uns minutos de reflexão. Não diria muito mais tempo, não diria horas nem dias, porque afinal estamos a falar de vidas humanas num “destes países”, não estamos a falar da Europa.  Pelo menos esta é a ideia que nos chega.

Exemplo deste pensamento desrespeitoso e infeliz aconteceu recentemente no Sudão, com um massacre, que levou à morte de mais de 100 pessoas, onde foram violadas mais de 70 e feridas mais de 500. Este marco foi completamente abafado, ignorado. Não se falou, não houve notícias, não valia a pena. Ninguém quis saber. Como se não fosse suficiente, o governo Sudanês desligou a internet durante uma semana em todo o país. Claro que se não desligasse também ninguém daria atenção, porque não estamos propriamente a falar de vidas numa França ou Alemanha. É meramente um Sudão. Um país africano com baixos índices de popularidade no turismo, com uma cultura composta por diversas crenças e práticas, com cerca de 145 línguas diferentes e uma população de 39 578 828 pessoas (estimativa de 2016) que não valem a pena salvar. Afinal são só 39 578 828 pessoas que não integram os típicos estereótipos e padrões europeus, que não são de classe média alta, que não são da raça europeia. É triste o que o governo Sudanês fez, mais triste ainda é ter a noção de que mesmo que não tivesse desligado a internet o assunto também não seria falado. Os media não se interessam com o que não vende, com o que acontece nos países que não estão na “moda”.

Estamos a falar de um massacre que apenas teve mais impacto pelo facto do governo ter desligado a internet. Mas a internet não é o único meio de comunicação, e é isto que, convenientemente, não está a ser falado. Há outras formas, há relações diplomáticas, embaixadas e consulados e, no entanto, durante uma semana nada se soube. Ninguém reparou que um país esteve uma semana incontactável? Provavelmente sim, mas era um país do “terceiro mundo”, e não vale a pena dispensar tempo, meios ou ter qualquer preocupação com esse país. Parece que uma vida de alguém de um país desenvolvido vale mais do que a vida de um país subdesenvolvido, infelizmente.

Temos que perder um bocado de tempo a pensar sobre o que se passa no Sudão, e quem diz este, diz qualquer outro país que está atualmente com estes problemas. Pensar e depois agir. Estamos perante uma séria crise humanitária.

Situações destas têm-se repetido ao longo dos anos, como temos o exemplo do atentado terrorista ocorrido na noite de 13 de novembro de 2015 em Paris e Saint-Denis, na França, que provocou 137 mortos. Isto é igualmente triste, mas é, de certo modo hipócrita, que um dia antes tenha ocorrido um atentado semelhante em Beirute, Líbano, provocado pela mesma associação terrorista, que nem noticiado foi e onde nem um número certo de mortes foi definido, variando as estimativas entre 37 e 40 mortos. Nem um número exato foi publicado. É triste. Ninguém quis saber, ninguém falou. É injusto o que aconteceu em Paris, mas também o é ter nascido do outro lado mundo. Imagens e molduras de com a frase “Pray for Paris” preencheram os feeds e os perfis do Facebook, mas não vi ninguém a “rezar” por Beirute. Talvez porque não soubessem, talvez porque não quisessem saber. Talvez porque só incidente em Paris, com efetivamente mais mortes, é que foi devidamente noticiado. Afinal Paris também é Europa, Beirute não. “Don’t pray. Think”.

Artigo de Francisco Lima. Revisto por Adriana Peixoto.