Artigo de Opinião Opinião

A DECISÃO DE VOLTAR ATRÁS NO TEMPO

Vinte e cinco é o número de homens num estado americano que tomaram uma enorme decisão por todas as mulheres, interferindo num direito fundamenta: a liberdade de escolha. O Senado no Alabama, constituído apenas por homens, rogou a sua decisão de proibir o aborto em toda e qualquer situação. É inacreditável que um conjunto de homens seja capaz de decidir por tantas mulheres, que muitas vezes se encontram em situações completamente impossíveis e que infelizmente não têm outro método de saída.

As mulheres americanas podem decidir tudo e fazer tudo o que querem, desde trabalhar até votar, mas não podem decidir se querem ou não ser mães porque há quem faça essa escolha por elas. É surreal como uma lei nos pode fazer retroceder tanto no tempo. E pensava eu que lá estavam para trás os tempos em que os homens faziam todas as decisões pelas mulheres, privando-as de quaisquer direitos.

Justamente quando acreditava que os Estados Unidos estavam a tentar cumprir devidamente a sua Constituição e dar direitos a todos, esta lamentável notícia surge. Notícias como estas são revoltantes e hei-de ir embora deste mundo sem perceber o que passa na cabeça de certos homens ao pensar que têm o direito de pegar numa questão que nada tem a ver com eles e decidir por todas as mulheres o que estas podem ou não fazer. É verdade que me queixo de muita coisa no meu país, mas neste caso estou aliviada por estar onde estou e não viver no Alabama.

O aborto é sempre algo bastante delicado, mas acredito que se trata sobretudo de uma escolha que uma mulher deve ter o direito de ponderar. Neste assunto opõem-se dois grandes lados, os que são contra este ato, os chamados “pro-life” e os que defendem que o aborto é uma questão de escolha. Aqueles que são “pro-life” e defendem o nascimento de todos, consideram que um feto é desde logo um ser humano e que já é capaz de ter sensibilidade. Sendo assim, para estes o aborto é desde logo interromper uma vida e por isso é um ato abominável e que ninguém devia fazer. Já os que não se opõem a esta questão da interrupção de uma gravidez entendem que um feto não é um ser humano, e por isso o aborto não é impedir alguém de viver.

É perfeitamente compreensível o lado das pessoas que acreditam que todos devem ter o direito à vida. É bom que as pessoas queiram proteger a vida de outros, mas nestes casos, de que vida estamos exatamente a falar? Não podemos pensar que todos estes bebés virão ao mundo e terão uma vida cheia de condições básicas e que as suas mães os irão amar incondicionalmente, pois infelizmente essa não é a realidade de vários bebés e crianças. Temos de começar a pensar no tipo de pais que trazem as crianças ao mundo e que tipo de futuro estes seriam capazes de fornecer à criança que aí viria. São demasiados os casos de crueldade contra crianças inocentes para ignorarmos este lado. Quer queiramos quer não, a realidade é que nem todas as mulheres vieram ao mundo com o intuito de serem mães, nem todas têm aquele instinto maternal e nem todas sentirão vontade de querer cuidar de filhos e de querer construir uma família.

Há sempre quem diga que em alternativa ao aborto existe a opção de dar a criança para adoção, o que é totalmente verdade. Isso seria mesmo ótimo se os orfanatos ou casas de acolhimento fossem sítios perfeitos e ideais onde tratam sempre bem as crianças e bebés. Se uma mãe não quer trazer o filho ao mundo porque este não vai ter condições de vida, ela tendo este receio de orfanatos e casas de acolhimento, quem lhe pode dar a garantia que dando a criança para adoção, esta irá para um sítio melhor? Claro que aqui a sorte também entra em jogo, porque conheço casos que me são próximos de crianças que foram para casas de acolhimento e posteriormente adoptadas e que agora são muito felizes onde estão. No entanto, nem todos têm essa sorte e estas mulheres receosas possivelmente vêm o aborto como uma forma de prevenir sofrimento, escolhendo assim terminar a gravidez e considerando esta a opção menos dolorosa. Existem casos que não se enquadram em nenhumas destas situações e que as razões para porem termo à gravidez são completamente egoístas, mas é demasiado extremo que haja mulheres que tenham de ser “castigadas” por esta medida, que não acaba por proteger tão bem as pessoas.

Este tema irá sempre ser algo de discórdia até ao fim dos nossos dias, mas então, porque não dar a hipótese de escolha a uma mulher que engravida ? Embora possa haver, custa-me acreditar que alguém engravida e queira interromper a gravidez por “diversão” ou que o faz de consciência leve e como se fosse algo fácil. Falta sensibilidade também para estas mulheres, que provavelmente têm de tomar umas das decisões mais difíceis da sua vida.

Proibir o aborto não faz parte de alguma solução, mas sim parte de um problema. Integra um grande problema como mulheres recorrerem a clínicas clandestinas, onde não têm qualquer segurança para interromper a sua gravidez porque se sentem encurraladas. Certamente é do conhecimento geral que estas clínicas têm muito poucas condições e devemos estar cientes de que realizar um aborto requer riscos à saúde e que, se não for realizado corretamente e com condições necessárias, tal pode levar também à morte da mulher e isso certamente não é algo que nós, como sociedade, queremos que aconteça.

O sonho de conseguir alcançar uma sociedade perfeita nunca vai existir. Haverá sempre alguém que estará descontente com as regras impostas no seu país, haverá sempre pessoas que não se darão bem umas com as outras e também existirá sempre pessoas com ideais diferentes e que os tentarão implementar sempre. Resta-nos ser então uma sociedade que aceita as escolhas das pessoas, quer estas sejam dolorosas e/ou impossíveis de compreender, pois a verdade é que nunca saberemos o que essas pessoas realmente sentem e o porquê de sentirem a necessidade de recorrer a estas medidas.

Artigo de Sandra Seidi. Revisto por Adriana Peixoto.