Artigo de Opinião Opinião

POR FAVOR, NÃO MATEM A DEMOCRACIA!

No dia 26 de maio, assistimos à maior taxa de participação desde 1999 nas eleições europeias. De acordo com os dados oficiais anunciados pelo Parlamento Europeu, as eleições que decorreram entre os dias 23 e 26 de maio obtiveram uma variação percentual positiva, de 8%, fixando-se nos 50,82% de participação ativa nas eleições para o Parlamento Europeu. Em Portugal, registou-se a maior taxa de abstenção de sempre. Algo está mal.

A ascensão dos grupos parlamentares nacionalistas ou extremistas, quer de direita, quer de esquerda (e destes últimos tão pouco se fala no cerne da atualidade); o clima de instabilidade político-social, que afeta o bom funcionamento da comunidade europeia, instaurado pelo Brexit; os cenários deploráveis e de total desrespeito pelos valores humanistas e democráticos da União Europeia que têm vindo a ocorrer na Europa de Leste, são factos que não parecem preocupar a sociedade portuguesa e, na sua maioria, os jovens, para meu desgosto.

É inconcebível que a “geração Erasmus”, que, a propósito, é um dos projetos mais bem conseguidos da União Europeia, a geração mais competente de sempre, seja capaz de desconsiderar umas eleições europeias. Jamais em tempo algum houve tantas ações de sensibilização, por parte dos media e das associações, relativas ao tema, e tanto apelo ao voto por parte dos partidos, algo que até foi fomentado nos debates políticos, que pouca audiência devem ter tido. Os jovens esqueceram o período de austeridade económica e o financiamento da troika, demonstraram-se indiferentes aos acontecimentos externos e pior ainda, ao seu futuro. Tudo isto reflete-se numa taxa de abstenção de 69%, aproximadamente 7 500 000 pessoas que não exerceram o seu direito de sufrágio, o que levou a que Portugal fosse o sexto país com a maior taxa de abstenção da União Europeia.

Por outro lado, poder-se-á dizer que existe, efetivamente, um certo distanciamento entre os partidos políticos e os cidadãos portugueses, que leva a que as pessoas não se sintam representadas e que, consequentemente, não acreditem na política, e escusado será dizer que as campanhas eleitorais foram, na sua generalidade, escassas e direcionadas para o combate direto entre os cabeça-de-lista dos vários partidos. No entanto, parece-me que o problema não está somente neste sentimento de incerteza e afastamento em relação aos grupos partidários. Estará mais na pequena aposta das instituições de ensino na formação cívica ou de cidadania e política dos estudantes, na fraca promoção que se faz ao diálogo do professor com o aluno, contrariando até os princípios básicos da escola clássica, paralelamente ao visível desinteresse da camada jovem pelos assuntos políticos, socioeconómicos e culturais, a nível nacional e internacional.

Por outras palavras, é toda esta quimera de situações que leva a que o eleitorado português não saiba optar pela melhor forma de protesto e a que os jovens se desresponsabilizem dos seus deveres morais e éticos, que não carecem de obrigatoriedade se estes entenderem a razão de ser do seu direito de sufrágio. Para tal, é essencial que se desenvolva a capacidade de abstração dos jovens, dos mais novos e das gerações vindouras, de modo a evitar o conformismo que não existe, como se constou, em certa medida, na classe mais conservadora da população portuguesa pela sua vivência do regime, e que devido ao facto de Portugal estar afastado da Europa central faz com que seja necessária a adoção de mecanismos mais fortes neste sentido.

Caros colegas, permitam-me, não pensem numa República Portuguesa sem Europa, nem tal seria exequível, quanto mais numa Europa sem liberdade de circulação de pessoas ou mercadorias; numa Europa sem paz ou direitos humanos; num ensino sem Erasmus; numa internet sem proteção de dados… Sirvam-se da vossa cidadania europeia e votem. Por favor, não matem a democracia! É uma questão de consciência.

Artigo de Gonçalo Guimarães. Revisto por Adriana Peixoto.