Crónica Opinião

MAIS UM OLHO NEGRO

Mais um dia, mais uma morte. Mais uma mulher, mais um pontapé. Mais uma nódoa negra. Era só uma. Foram só ciúmes. É normal ter ciúmes. Eu não queria, mas tu obrigaste-me. Eu não fiz por mal. Foi só um estalo. Foi só um grito. Só, dizem eles.

Ele ama-me. Ele não fez por mal. Eu é que não devia ter feito isto. Não devia ter dito aquilo. Não o devia ter provocado. A culpa foi minha. Ele é bom. Foi só um insulto. Não foi nada de mais. Eu é que fiz asneira. Eu é que errei. Eu, dizem elas.

Um insulto, um estalo, um pontapé não é só mais um. Não é por fazeres as tuas escolhas que mereces um castigo. Tu não és culpada. Não foste tu, foi ele. Não foi a saia que vestiste ou o decote que usaste. Foi ele que não queria. Foi ele que interferiu na tua liberdade, nas tuas escolhas. Não foste tu.

Não pediste pelas nódoas negras que tens no corpo. Não merecias. E se alguém te disse que merecias, enganou-te. Iludiu-te. A vida é tua. O corpo é teu. Tu não és dele. Tu não és do próximo que vier. És tua. És feita daquilo que quiseres. E não faz mal vestir aquele vestido curto, aquela saia justa ou, simplesmente, vestires a tua pele.

Não tenhas medo. Não te escondas. Não estás sozinha. Estamos aqui. Pede ajuda. Mas, por favor, não sejas só mais uma. Não deixes que mais um homem cale uma mulher. Não queiras ser só mais uma notícia que aparece no jornal ou televisão. Não te deixes vencer. Não sejas mais uma vítima. Foge, vai para longe e protege-te. E denuncia.

Acredita. Acredita em ti. Faz um esforço para acreditar na justiça. Aquela justiça que deixa livre os agressores. Sim, essa mesmo. A justiça que te diz que a culpa é tua e que merecias. Ignora. A verdade será revelada e ele terá o que merece. Talvez, não à primeira vez. Se calhar, vais ter de pisar várias vezes o chão daquele tribunal. Talvez terás de olhar mais do que uma vez para os olhos que te fizeram, outrora, ver o mundo. Vais decorar a cara dele e as suas expressões. Feições que um dia te fizeram rir e sorrir. Vais recordar as mãos dele. Aquelas mãos que te aqueciam o coração de cada vez que te tocava. Mas também vais lembrar as mãos que te batiam, que te agarram e que se asfixiavam. E quando te lembrares disto, vais perceber que nada era feito com amor. Que aquele homem não te amava, não te respeitava. E as promessas que um dia fizeram, foram levadas pela corrente do rio.

Vais ser feliz. Vais encontrar alguém. Um alguém que te faz sorrir, chorar e desejar que nunca te vás embora. Não vai nunca te levantar a voz, nem a mão. Não te vai obrigar a escolher entre ele ou os teus amigos. Vai amar-te. Tal como és. Tu, toda tu, simplesmente tu. Ou, talvez, vais ficar sozinha. Só tu, apenas tu. Vais amar-te e perceber que, acima de tudo, tens de ter amor próprio, amor por ti. Não precisas dele. Não precisas de ninguém, mas não faz mal se te deixares ser amada. Sozinha ou acompanhada vais perceber que ele não te merecia. Que sempre que ele te dizia que te amava, não o fazia realmente. Que a culpa era dele. E que não era só mais um olho negro.

Artigo de Beatriz Matos. Revisto por Adriana Peixoto.