Artigo de Opinião Opinião

NOVA ZELÂNDIA

Já passou algum tempo, mas ainda me lembro do momento em que liguei a internet, fui consultar as notícias mais recentes do Twitter e me deparei com uma notícia cruel. Havia ocorrido um ataque na Nova Zelândia em duas mesquitas que resultara em vários mortos e feridos. Fiquei ainda mais surpreendida ao ver que o atirador tinha filmado o ataque todo e que havia pessoas e redes oficiais de comunicação a partilhar tal barbaridade, dando-lhe exatamente o espetáculo e alastramento do terror que o mesmo pretendia.

Isto faz-me pensar num dos grandes problemas que surgiu em grande escala com as redes sociais, o de querer atenção a todo custo. Existem muitas pessoas a desejarem a atenção destes estranhos virtuais que nós somos, para impressionar, amedrontar, admirar, o que seja. As redes sociais moldam a nossa mente de uma forma totalmente inacreditável, faz com que as pessoas anseiem o espectáculo que estas nos fornecem, cada vez mais e infelizmente por vezes surgem pessoas que aproveitam este meio para ajudar a espalhar o medo.

Indivíduos como estes só querem causar o terror e amedrontar a população, fazendo chegar a sua mensagem ao maior número de pessoas. Felizmente, também vi muita gente preocupada com a divulgação do vídeo daquele massacre e a fazer os possíveis e impossíveis para evitar o alastramento do mesmo, em zelo não só às vitimas, mas principalmente aos seus familiares.

Não pude também deixar de reparar em como os media insistiam em apelidar este terrível atirador, como sendo apenas isso, um atirador. Um alguém que age com ódio e assume como missão tirar a vida a humanos inocentes, não é apenas um atirador e muito menos apenas alguém que sofre de doença mental, como quiseram passar a imagem. Não consigo concordar com este género de descrições, pois um ataque destes não pode ter sido algo espontâneo, foi calculado e executado de forma impiedosa.

Isto foi mais que um “simples” tiroteio. Isto foi um ato de afirmação política, contra a religião e acima de tudo contra os imigrantes. Isto foi um clássico ato de terrorismo. Não é por se tratar de um atirador natural da Austrália que devemos deixar de tratar as coisas pelo seu devido nome. O termo terrorismo está demasiado associado ao povo islâmico, mas temos de saber adaptar as situações. O terrorismo não é só da parte de um povo, é um ato que pode ser praticado por todos, como já se viu em várias situações.

Com isto, a Nova Zelândia já adquiriu novas leis sobre o controlo de armas, com o intuito de não permitir que um ataque destes volte a acontecer. Nesta zona nem é frequente ouvirmos falar de tiroteios, mas à primeira grande ocorrência decidiram mudar quase de imediato as suas leis, para proteger mais as pessoas. Os Estados Unidos bem que podiam aprender, não é verdade? Pergunto-me quantos mais tiroteios vão ter de ocorrer nos Estados Unidos para que se faça algo para mudar o acesso às armas. No entanto, penso que se trata de um problema de mentalidades mais do que preguiça ou falta de vontade de mudar alguma coisa. Este é o país onde pais admitem que os seus filhos lhes limpam as armas, como assisti um senhor a afirmar em plena televisão um dia destes, portanto não vejo esta situação a atenuar recorrendo apenas às leis no papel.

Como é possível estarmos em 2019 e as pessoas não poderem ser livres de praticarem a sua fé? O medo que se tenta impingir nas pessoas por fazerem coisas normais, mas que vão contra as crenças de outras é completamente irracional. Não podemos deixar que nos criem este medo de sair à rua e de fazermos o que queremos sem incomodar ninguém. Somos pessoas, somos livres e temos de aceitar todas as formas de viver dos outros, desde que não nos prejudiquem. Não podemos deixar que o medo nos consuma e muito menos permitir que nos roubem a liberdade desta forma.

Artigo de Sandra Seidi. Revisto por Adriana Peixoto.