Crónica Opinião

O FILME DA VIDA DE MIGUEL

Miguel Barbosa encontra-se defronte do seu computador portátil, a aguardar que inspiração lhe chegue para poder escrever um texto subordinado à temática do filme da sua vida. Estava um pouco assustado em relação ao tema, porquanto não costumava visionar películas cinematográficas. O que iria fazer? De que filme iria falar? Quiçá sobre algum de animação da sua infância. Todavia, achava pueril tratar um texto a refletir os motivos pelos quais a “Idade do Gelo” ou aquele filme do ogre verde lhe tocavam no coração.

Encostara-se melhor à cadeira. Não se recordara de nenhum filme. Deu dois goles num copo de água que tinha ao seu lado. Cogitou mais um pouco. Nisto, vieram-lhe à mente várias possibilidades: “Mad Max”, “O Gladiador” e “Birdman”. Que infortúnio. Nunca tinha visto nenhum destes. Farto de meditar já estava, quando se lembrou de “Duas Irmãs, Um Rei”, “A Vida é Bela” e “Orgulho e Preconceito”. Embora desta vez tivesse efetivamente visionado estes últimos, não achava que algum destes teria sido o filme da sua vida.

Decidiu tomar um banho de imersão para tranquilizar as ideias. Enchera a banheira de água morna. Mal deitara-se na banheira, gritara: “Eureka!”. Saiu do banho, apressado, limpou-se, vestiu-se e correu para o computador. O filme que modificou completamente a sua vida e que o moldou enquanto pessoa foi, sem dúvida alguma, “Life of Brian”, dos Monty Python. Não fosse esse gosto pelo humor que o autor deste texto tem e não escreveria três parágrafos com inúmeras tentativas de comédia (e a tentar preencher o mesmo).

Na obra-prima dos Python, o lapso inicial dos três Reis Magos na gruta onde está Brian – em vez do menino Jesus -, é a entrada saborosa que não enche para o resto do jantar sublime. Já em adulto, Brian é confrontado com o domínio romano na Judeia, sua terra natal, e alista-se na Frente Popular da Judeia para combater a Roma opressora. Após alguns incidentes com guardas romanos, Brian dá por si a pregar para uma multidão, como se fosse o verdadeiro profeta, e quando foge dos populares, estes creem que Brian é a figura messiânica e o Salvador do povo judaico. No entanto, aquando chegam até Brian, os populares ficam espantados pelo facto do “Messias” proferir que as pessoas têm de deixar de seguirem uma mentalidade de rebanho e começar a pensar por si mesmas.

No fim, após outro encontro com os romanos, Brian é condenado a ser crucificado, e enquanto está preso na cruz, nem a sua mãe, nem a sua namorada, nem os seus camaradas da Frente Popular da Judeia o salva. Melancólico e exasperado face ao seu destino, um outro indivíduo que de igual modo se encontra crucificado começa a cantar a mítica e intemporal música “Always Look on The Bright Side of Life”. A sátira patente à religião cristã está sempre presente na longa-metragem, nunca deixando de ser sofisticada. Miguel Barbosa vivia sob o contraste de lutar, através do humor, contra as adversidades do mundo, sejam elas fúteis ou graves, graças a este filme, como é transmitida essa ideia ao longo do mesmo, sobretudo na canção que finda a película.

“A Vida de Brian” era, sem sombra de dúvidas, a sua película predileta, não só derivado de todas as peripécias que iam acontecendo ao protagonista, como também, algumas delas, se podiam considerar diretamente metáfora de certos eventos caricatos e lúgubres da vida de Miguel.

Artigo de Miguel Barbosa. Revisto por Adriana Peixoto.