Crónica Opinião

AS MANIFS PELO AMBIENTE COMO AS CALÇAS DE GANGA LEVI’S

No dia 7 de novembro de 2000 eu tinha 3 anos e 0 memórias de estadia aqui na Terra. Mal sabia que essa data ficaria (ficará?) na história da nossa espécie: Al Gore, candidato a presidir ao cargo de pessoa mais influente do mundo, numa contagem de votos alegadamente polémica, perde no photo finish para George Bush filho. Seria decerto um mundo diferente. Mesmo assim, pode dizer-se que o impacto das suas lutas não esmoreceu com essa derrota. Pois eu bem me lembro, na minha criancice, no tempo em que o feed do Facebook era a caixa de email, de receber, intercalados com aqueles vídeos de quedas ou de autogolos bizarros (ou, claro, de estupendas jovens seminuas brincando com gatinhos), aqueles lendários powerpoints sobre o aquecimento global e a sustentabilidade ambiental, ao som de “What a wonderful world” do também lendário Louis Armstrong. Enfim, tive talvez a sorte de me colocar a par do problema na idade em que ainda acreditamos em powerpoints manhosos. E isto tudo para dizer o quê? Deixemos para já assim: Al Gore queria certamente uma causa permanente, mas, ao invés, fundou uma moda.

Em 2006, Al Gore lança o documentário que viria no ano seguinte a ser galardoado com um Oscar, intitulado An Inconvenient Truth, ou, como os meus colegas de turma chamaram na aula em que o visualizamos, torneio de STOP em fisico-química. Numa rápida pesquisa para esta crónica, fiquei a saber que Gore, em 2017, lançou uma sequela do documentário de 2006: An Inconvenient Sequel. Se o primeiro teve um impacto mediático considerável, o segundo, ao que julgo saber (ou andei muito desatento), nem por isso. A moda foi-se, e a imprensa, por arrasto, idem. Mas a mudança climática continuou. E continua. Entretanto, a moda é acreditar na invalidade científica do aquecimento global e levar a expressão “4 cantos do mundo” à letra.

No dia 15 de março de 2019 eu tinha 21 anos e 0 memórias de ações políticas em que a sustentabilidade ambiental fosse colocada à frente da porcaria das metas do défice. Não sei se essa data ficará na história da nossa espécie. Sei que a geração mais responsável pelo aquecimento global está e vai continuar a dizer que é muito bonito fazer greves a uma sexta feira. E, como já li, que os estudantes não trabalham, pelo que não faz sentido fazerem greve. Ou ainda que o melhor é os miúdos deixarem o assunto para os adultos e para os especialistas. Inclusivamente, em Portugal, inúmeras escolas não justificaram a falta dos estudantes grevistas, alegando as mesmas razões. Não me considero por enquanto um pleno adulto, mas, se bem me lembro, o adulto é aquele que é especialista em ignorar e adiar um assunto até à última hora. Sobretudo se não é o seu futuro que está ameaçado. A não ser que na sua reforma passe a residir nas mesmas ilhas onde tem as suas contas offshore, se elas ainda estiverem acima do nível do mar. Mas talvez esteja a fazer confusão com esses mandriões desses estudantes que só querem é uma desculpa para faltar à escola e beber umas cervejas com os amigos. Em Portugal, as manifestações pautaram-se pela boa disposição e criatividade, como seria de esperar. No entanto, arrisco dizer, nenhuma manifestação bateu a de um estudante de Bruxelas que se vestiu de árvore para celebrar a causa. Numa das melhores ironias sem querer da história, fez-se uma bela homenagem ao até agora papel das entidades governamentais na peça de teatro da mudança climática.

Creio, agora numa toada mais séria, que a solução está na pedagogia infantil. Em vez de insistir em documentários densos e evidentemente exagerados, adotaria uma linguagem mais acessível para elucidar o bebé que neste momento preside ao cargo de pessoa mais influente do mundo. Algo como: “Onde é que está o aquecimento global? Cá está eeeeele!”, ou “Meu menino, se voltas a comprar petróleo à Venezuela, o jantar hoje é sopa de peixe!”

Hoje, talvez como nunca, enquanto sociedade temos dificuldade em associarmo-nos a causas que não estão na moda. E, se isto de lutar por um futuro planetário digno é, como muitos tasqueiros que usam base laranja na cara afirmam, uma moda, eu gostava que esta moda fosse como a moda das calças de ganga Levi’s, que veio, e nunca mais se foi.

Al Gore ao lado de Greta Thunberg. Para ontem.

Artigo de João Pedro Mendes. Revisto por Adriana Peixoto.