Crónica Opinião

A VIOLÊNCIA IRÁ ALGUMA VEZ CHEGAR AO FIM?

Ultimamente um dos assuntos que mais tenho lido nas notícias é sem dúvida a violência de homens perante as mulheres. Completamos dois meses neste novo ano e já apontam que uma dezena de mulheres foram assassinadas por companheiros ou ex-companheiros. Dois meses e quase uma mulher por semana tem sido violentamente retirada do seu direito à vida.

Não consigo com honestidade perceber se este problema se encontra nos homens em geral, pois isso também seria injusto para aquela que também é, a quantidade de homens com valores e com o devido respeito para com as mulheres. Homens estes que nunca seriam capazes de pertencer às estatísticas daqueles que agridem fisicamente ou verbalmente as suas companheiras ou ex-companheiras.

Já pensei neste assunto várias vezes e quando leio as notícias de que mais de dez mulheres já foram assassinadas pelas mãos dos homens com quem já partilharam a sua vida, surge um sentimento de revolta. Revolta de pensar que há raparigas por aí que sentem o medo constante de confiar em alguém devido ao comportamento abusivo de alguns homens. Revolta por sentir que tenho de ficar cada vez mais cautelosa ao cruzar-me com qualquer pessoa do género masculino. Sinto revolta pelo meu subconsciente sentir cada vez mais medo a cada caso destes que leio. Somos criados para aprender a confiar nas pessoas e eventualmente encontrar aquele ou aquela com quem iremos passar o resto das nossas vidas. Mas se isto se torna cada vez mais raro, em quem devemos confiar então?

A justiça parece estar um pouco estagnada na ajuda às mulheres em perigo. Anualmente são feitas milhares de queixas para tentar impedir a violência doméstica. As mulheres ganham coragem de denunciar o companheiro e deparam-se muitas vezes com uma resposta indiferente. Na maioria destes casos que ouço falar que acabam em tragédia, as mulheres já haviam apresentado inúmeras queixas, ou já haviam tido alguma intervenção da polícia, mas que não chegou a conclusão nenhuma e a mulher não foi retirada do ambiente abusivo. O grande problema deste crime, é que muitas vezes é dificílimo de se provar, por isso as mulheres têm de se colocar constantemente em perigo para conseguirem provas, mas infelizmente alguns destes casos não acabam nada bem.

Por falar em justiça, penso que é bastante preocupante quando leio notícias sobre um juiz que vem na defesa dos homens que abusam fisicamente das mulheres, deixando os mesmos em liberdade e dando-lhes o poder de cometer o mesmo crime novamente. Exponho o caso do juiz Neto de Moura, que já conta com algumas decisões polémicas e umas declarações que demonstram o pensamento antigo que este homem detém em relação à união entre um homem e uma mulher. Isto preocupa bastante, pois estamos a falar de um homem que se encontra nos campos mais altos da justiça, que é capaz de castigar aqueles que cometem crimes, que é chamado para proteger as vítimas, mandando os seus agressores para muito longe. Quando temos um homem nesta posição, que decide usar a justiça de acordo com a sua crença em proveito dos homens, a isso não podemos chamar de justiça, mas sim, abuso de poder. É impensável ir a um julgamento de violência doméstica, magoar gravemente a pessoa com quem partilhamos a vida e ter o órgão máximo do tribunal a afirmar que o caso é normal, banal até.

Várias pessoas saem à rua em protesto contra a violência machista e ao ver homens e mulheres a juntarem-se em defesa das mesmas dá-me esperança que alguma vez seremos capazes de atenuar estes números tão elevados de violência doméstica. Se com estas marchas forem capazes de atingir as gerações mais novas e fazer com que esta violência machista atenue, então saiam à rua, gritem e pode ser que um dia eles nos ouçam.

Sinto tanta solidariedade por todas as mulheres que passaram e que estão a passar por este problema. Gostaria de ter a solução para isto, acordar já amanhã e poder dizer “agora sei definitivamente o que fazer para parar esta violência entre casais e ex-casais”. Enquanto isso, apenas leio estas notícias que me fazem criar uma tremenda compaixão perante as outras mulheres e me criam aquele grande sentimento de revolta, que tende a crescer a cada notícia destas.

Artigo de Sandra Seidi. Revisto por Adriana Peixoto.