Devaneios Opinião

O TEMPO (E A FALTA DELE)

Um dia tem 24 horas. Bem, na verdade, tem apenas 16 horas, porque 8 delas são (ou deveriam ser) passadas a dormir. Há muito para fazer, mas 16 horas parece bastante, por isso tudo parece indicar que tempo não vai faltar para assistir a aulas, estudar, lanchar com os amigos e ainda ver um episódio da minha série favorita antes de dormir.

Ora, na realidade não é nada assim. Por vezes interrogo-me se sou eu que organizo o meu tempo de forma lamentável ou se o relógio se move mais depressa do que deveria para todas as pessoas. O stress começa logo de manhã, quando aqueço leite no micro-ondas durante um minuto. Um minuto, 60 segundos, de certeza que consigo adiantar algo enquanto o leite aquece – tenho tempo de calçar as botas e até de colocar os livros na mala (penso eu). A triste verdade é que eu só virei costas ao micro-ondas e ele já está a apitar, para me dizer: “não, não tens tempo de adiantar absolutamente nada enquanto o leite aquece”. Uma vez na rua, a caminho da faculdade, vejo o tempo que tenho e é mais do que suficiente (quase sempre) – pois por algum motivo o meu relógio decide avançar 5 minutos preciosos que eu pensava que tinha e dou por mim a ter de alargar bastante a passada para chegar a tempo. Às 13h vou almoçar. A próxima aula é só às 14h, por isso tenho 1 hora para comer e falar com os meus amigos calmamente sobre os assuntos do momento – mentira. Quando a conversa fica interessante, há que ir arrumar os tabuleiros, porque já está praticamente na hora da aula. Ao fim da tarde, depois de 8 horas passadas na faculdade e depois de vários neurónios a implorar por descanso, venho para casa e, pelo caminho, vou planeando o estudo que tenho mesmo de fazer, para ter um fim-de-semana minimamente relaxado – decido estudar Direitos Fundamentais e, na minha cabeça, o tempo que tenho até jantar chega perfeitamente para estudar o que considero necessário. Surpresa: não chega. Queria tanto ver “Friends”, mas vou ter de continuar a estudar, porque o relógio voltou a enganar-me.

Ao fim-de-semana, tento dividir o meu tempo pela família, pelos passeios, pelas limpezas e pelo estudo. Organizo-me e fico verdadeiramente orgulhosa de conseguir ter tempo para tudo. Pois é, lanço os foguetes demasiado cedo, porque as coisas que parecem demorar pouco tempo acabam por me sugar o dia todo, então acabo por não conseguir estudar tudo o que devia, logo, segue-se mais uma semana a querer ver a série e não poder, por ter tudo em atraso.

Na cidade, a azáfama e a correria contagiam-se. Não sei não ter pressa, não sei não olhar para o relógio, não sei como em teoria tenho tempo para tanta coisa e na prática nem para metade tenho. Dizem que no campo o tempo passa mais devagar. Talvez um dia vá a uma aldeia do interior para comprar um dos calmos relógios que lá têm.

Artigo de Sofia Torres. Revisto por Adriana Peixoto.