Crónica Opinião

O QUE AINDA NÃO FOI DITO SOBRE CONAN OSÍRIS

Faz já mais de uma semana que Conan Osíris ficou definitivamente famoso para o público português em geral, através de uma impactante atuação no palco do Festival da Canção. Este artigo nasce da feliz coincidência de, no momento em que procurava um programa de televisão para entreter o serão de sábado, me deparar com a interpretação de um sujeito bizarro, com vestes largas e sapatilhas provavelmente da Fila, a cantar uma espécie de fado meio cigano meio oriental. Apropriando-me do léxico do próprio, seguramente uma cena bué abstrata. Lembrei-me nesse momento de que já havia ouvido falar de uma tal criatura excêntrica, de seu nome Conan Osíris, que iria marcar presença no dito certame. Enquanto observava curioso todo o manancial de danças e sons amalgamados, escutava os sussurros de escárnio e desdém da parte de meu pai e minha mãe acerca do indivíduo. Quando comentei que as casas de apostas o colocavam como principal candidato a representar Portugal em Israel, a reação foi de um honesto e empático sarcasmo e uma leve malícia. Que isto não é nada, que isto é só lixo, que se isto vai representar Portugal é para sermos gozados, que agora qualquer merda é música, etc., etc. Como não conhecia nada da personagem e do reportório musical de Conan, deixei as críticas no ar. Consenti. Qual não é meu espanto, passei pelas tendências do Twitter e li diversas reencarnações de meus progenitores. No dia seguinte, qual não é meu espanto, os mesmo rol de cantares de escárnio e maledicência no Facebook.

Comecei então uma moderadamente profunda investigação sobre o músico. Li entrevistas, artigos de opinião, artigos de análise pretensiosamente musicológica, ouvi o aclamando álbum Adoro Bolos. E cheguei a algumas conclusões que gostaria de partilhar.

Não sei se Osíris é fado, funaná, kizomba, folclore, música eletrónica experimental, música cigana, música árabe, rock ligeiro, hip hop ou música de carrinhos de choque. Não sei se o verdadeiro Osiris é o que usa tranquilamente calão em direto, que diz “uma beca” como se estivesse no bar do Fred em 2006, que parece um meme humano, ou se, pelo contrário, o verdadeiro Osíris é o autor de estrofes carregadas de um saudosismo dramático, obscuro e niilista, ou se não há verdadeiro Osíris, ou ainda se não interessa o verdadeiro ou o falso Osíris. Não sei porque faz de conta que não domina a língua portuguesa. Não sei se aquela indumentária peculiar é a gozar, se tem alguma mensagem subliminar, ou se é simplesmente Osíris a escolher a roupa na secção homem da Zara com uma venda nos olhos.

Sim. Depois de ler e ouvir muito material de estudo sobre Conan, a única conclusão a que cheguei foi esta: se, como sinceramente espero (e ressalvo desde já que este desejo não significa necessariamente que goste da sua música), Conan vencer o festival da Eurovisão, nada disto importará. Afinal, se bem me lembro, a música “insossa” e “pouco mexida” do “totó” Salvador Sobral e sua irmã trouxe pela primeira vez o microfone de cristal para Portugal, e ambos foram recebidos em apoteose num aeroporto da Portela sobrelotado. E, se bem me lembro, o mesmo Salvador passou a ser novamente odiado quando disse, em plena festa de angariação de fundos para as vítimas dos incêndios em Pedrógão Grande, que o público aplaudiria qualquer som que ele emitisse, até um peido. Afinal, se bem me lembro, as expetativas da canção “O Jardim” de Cláudia Pascoal eram elevadíssimas (pessoalmente até considero a canção superior a “Amar pelos dois”), e, após o último lugar na passada edição do festival Eurovisão, Cláudia passou a persona non grata em Portugal, por alegadamente ter humilhado o país na sua própria casa. O que sei é que o público português na sua generalidade é provinciano e conservador, como aliás todos os públicos gerais de todos os países: a sociologia já provou que a sociedade é sempre naturalmente conservadora e avessa a tudo o que desconhece e estranha. Tal entra em conflito com a conceção de arte pós-modernista e pós-estruturalista, que pressupõe o estranhamento do público, o que leva inevitavelmente a uma linha muito ténue entre o mau gosto estético e a vanguarda artística. Não sei, neste momento, se a música de Conan é boa ou má, e talvez não importe assim tanto saber. Sei que me faz repensar os padrões da arte, e só por isso já merece ser considerada e ouvida.

Em suma, esperava encontrar conclusões claras e inequívocas sobre Conan Osíris, e a única coisa que concluí foi que a opinião pública portuguesa é mais volátil do que o dançarino que acompanha Conan Osíris. O próximo sábado comprovará isso.

Artigo de João Pedro Mendes. Revisto por Adriana Peixoto.