Crónica Opinião

UM NACIONALISMO EM CADA ESQUINA

George Santayana já dissera: “Quem esquece o seu passado está condenado a repeti-lo”. Pelos vistos, é o que se está a suceder pelos habitantes da Europa. Desde já, recomendo o consumo de Memofante aos mesmos. Não por ganhar comissão com o medicamento em questão (o que se lamenta), mas por recear o retorno dos nacionalismos. Embora não tenha vivido nas décadas de 30 e 40, ao que me dizem, não foram anos lá muito aprazíveis no velho continente. E no mundo em geral.

Comecemos pela questão do Brexit. Tudo principia com a vitória de David Cameron nas eleições britânicas de 2015 – somente as venceu, uma vez que prometeu que iria fazer um referendo para a saída do Reino Unido da União Europeia. Palavra dada, palavra honrada. Após intensos debates, estudos em relação às consequências da saída, o Brexit ganha. Não por tudo o que foi enumerado atrás, mas sim porque uma boa parte dos votantes foi para a cabine de voto sem saber o motivo pelo qual estava ali. Ao ler esta notícia, lembrei-me logo de mim, porquanto eu próprio também respondo aleatoriamente às escolhas múltiplas. Escusado será dizer que simpatizei logo com o povo britânico.

Gostaria só de acrescentar à bizarria que aconteceu após o referendo em terras de Sua Majestade o seguinte: dois dos grandes apoiantes do Brexit, Nigel Farage, que antes dos resultados do referendo era líder do partido UKIP – partido pró-Brexit –, e Boris Johnson, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, assim que souberam do resultado vitorioso que tiveram, o primeiro demitiu-se da liderança do UKIP e o segundo não se quis candidatar a primeiro-ministro britânico (não esquecer que David Cameron apresentou a sua demissão aquando do anúncio do resultado final). O leitor interroga-se: “Bem, se estes dois colossos anti-UE não se quiseram candidatar a primeiro-ministro do Reino Unido, quem terá sido?”. A resposta não surpreende: Theresa May – que, recordo, durante a campanha, foi apoiante acérrima da continuação do Reino Unido na União Europeia. O que o poder faz a ideologias… Se é que May tem alguma.

Em relação ao aumento da popularidade da extrema-direita na Alemanha e na Suécia há muito pouco para proferir – e muito para lamentar. Vai para além da compreensão cognitiva, num país como a Alemanha, o terceiro partido mais votado, nas eleições federias de 2017, ser o Alternativa para a Alemanha (AfD) – partido de extrema-direita. Pelo sim, pelo não, aconselho a fecharem as fronteiras a todos os austríacos. Não vá o diabo tecê-las.

Quanto à Suécia, aí sim, é completamente compreensível, visto que o drama dos refugiados e a falta de condições de vida são das situações que mais afetam esse país, devido da sua posição geográfica. Até faz fronteira com o Médio Oriente e tudo.

Relativamente à Hungria e à Itália, o fundamental a salientar é que isto das políticas europeias é muito relativo, pois permitir que países liderados por fascismos disfarçados têm a sua graça – uma espécie de travestismo político -, no entanto, pode ter consequências drásticas. Portanto, o apoio prestado a esses países pela UE tem de ser revisto. Torna-se incoerente viver sob políticas que primam pelos Direitos Humanos numa comunidade unida nesses esforços, e haver uns dois ou três países que vilipendiam as normas vindas de Bruxelas.

Em retrospetiva, a causa da ascensão do fascismo é fácil de diagnosticar: a ignorância, a propaganda política a contorcer a realidade da situação da imigração e questões laborais frágeis em alguns países da UE. Todavia, sinceramente, não creio que seja uma situação alarmante. Tendo em conta que levo uma vida pacata e totalmente desinteressante, acharia divertidíssimo haver perseguição por parte de uma polícia política e já que não tenho nada de relevante para dizer, uma censura instaurada por cá. Sempre era mais emocionante e poupava-se tempo em escrita para jornais. Infelizmente, em Portugal, é inverosímil que o PNR consiga sequer um lugar na Assembleia da República. Infortúnios deste mundo.

Contudo, e para findar, há que pensar positivo. Quem gostar de viagens no tempo, tem aqui um petisco bem interessante. De acordo com a propensão de voto pela Europa fora, viajar no tempo vai deixar de pertencer ao domínio ficcional. Karl Marx tinha razão: “A História repete-se: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.

Artigo de Miguel Barbosa. Revisto por Adriana Peixoto.